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Diário de Brasília: ecos da final 2

Luiz Zanin Oricchio

02 de dezembro de 2010 | 08h25

Baixarias midiáticas à parte, ficam os filmes. Pode-se dizer que o júri acertou ao eleger como vencedor O Céu sobre os Ombros, do mineiro Sérgio Borges. Ao relatar uma fatia de vida dos seus três personagens, Borges mostra como é possível ser inventivo e ousado no trato da forma sem com isso perder de vista a profundidade e a complexidade dos personagens. Sem essa síntese, o cinema vira diletantismo formalista. Dessa forma, a produtora mineira Teia, que de fato faz um belo trabalho de renovação, ganha um importante prêmio de longa-metragem que a projeta mais ainda para fora dos seus limites. Essa é a melhor consequência deste festival e do resultado do júri oficial.

É pena que o outro concorrente capaz de unir inovação formal e humanidade, Transeunte, tenha sido prejudicado. Tido como um dos favoritos, ganhou apenas os prêmios de ator para o incrível Fernando Bezerra e o de melhor som. Muito pouco para o belo trabalho de Eryk Rocha sobre o cotidiano de um aposentado solitário que, de forma progressiva, se reencontra com a alegria de viver. Por sorte, a premiação da crítica fez justiça ao trabalho de Eryk e deu-lhe o troféu de melhor longa-metragem desta edição. No palco, o ator Fernando Bezerra deu um show de elegância ao receber seu Candango. Dedicou-o a toda a equipe e procurou minimizar a importância do seu trabalho, dividindo-o com os outros. No clima tempestuoso do Cine Brasília, Fernando comportava-se com a serenidade de um velho marinheiro em meio ao naufrágio.

Os prêmios que não vieram para Transeunte foram para o mais estéril dos concorrentes, Os Residentes, vencedor dos troféus de atriz (Melissa Dullius), atriz coadjuvante (Simone Sales), fotografia (Aloysio Raulino) e trilha sonora (vários). O engraçado é que, em conversa em off com o Estado, um dos membros do júri encontrou a melhor definição para Os Residentes: “um filme feito em 1968”. Perfeito – Os Residentes seria um fime estimulante se não chegasse com meio século de atraso e não exibisse tanta subserviência em relação às matrizes idealizadas do diretor, Godard, em especial. Ou o jurado mudou de ideia ou foi voto vencido. Nada mau para um filme que entrou na competição aos 45′ do segundo tempo, substituindo o bonito documentário O Mar de Mário, desclassificado porque havia quebrado o ineditismo ao ser exibido na Mostra de Cinema de São Paulo.

Mais interessante que Os Residentes, A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande, ficou apenas com os prêmios de ator coadjuvante (Rikle Miranda) e direção de arte (Gustavo Bragança). O filme mistura gêneros de forma criativa, no trabalho com o imaginário de uma adolescente carioca descontente com o tempo e a cidade em que vive. Tem qualidades, embora o filme anterior da dupla, A Fuga da Mulher Gorila, seja mais inquietante, embora de realização mais precária.

De forma correta, o júri, formado pela romancista Ana Miranda, pelo pesquisador André Brasil, pela atriz Bidô Galvão e pelos cineastas Anna Muylaert, Erik de Castro, Antonio Carlos da Fontoura e Kleber Mendonça, ignorou o documentário Vigias, de Marcelo Loredello, de fato muito fraco. Último filme a ser apresentado em concurso, mostra o cotidiano de vigilantes noturnos dos edifícios de classe média do Recife. A ideia não é ruim, afinal os vigias se encarregam da segurança mas ao mesmo tempo são argutos observadores da classe social que os emprega e à qual não pertencem. No entanto, o filme se conforma com a inteligência da fala de alguns deles e não explora mais a fundo esse contraste. Ficou a impressão de filme de pesquisa e realização preguiçosas. Foi o único longa a sair de mãos abanando.

Sim porque, também ignorado pelo júri oficial, Amor?, de João Jardim, faturou o prêmio do público. Numa imagem perfeita do que foi este desfecho de Festival de Brasília, nenhum representante do filme se apresentou para receber o troféu.

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