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Diário de Brasília: curtas-metragens, de conflitos da terra a mitos amazônicos

Luiz Zanin Oricchio

29 de novembro de 2010 | 07h44

A mostra de curtas-metragens continua a apresentar filmes interessantes, embora até agora nenhum pareça excepcional. Uma boa surpresa foi Acercadacana, de Felipe Calheiros (PE), sobre a extinção das pequenas propriedades na Zona da Mata de Pernambuco sob a ação das grandes usinas de cana de açúcar, produtoras de álcool.

O filme mostra como os pequenos proprietários foram sendo “convidados”, por meios nada civilizados, a deixar lotes de terras ocupados por suas famílias há várias gerações. Ouve personagens, a principal sendo Dona Maria Francisca, sertaneja disposta, que defende sua gleba de meio hectare como uma leoa. O mérito do filme não é apenas focar uma situação de injustiça, mas explicitar relações de poder presentes no conflito de forças desiguais. É filme político. Feito por jovem, o que significa que nem tudo está perdido.

Braxília, de Danyella Proença (DF), traz um personagem incrível da cidade – o poeta e agitador cultural Nicolas Behr. Com seus longos cabelos contraculturais, Behr veio de Cuiabá para Brasília nos anos 70 e mantém com a cidade um caso intenso de amor crítico. Acha que Brasília é uma utopia traída e toda vez que ela respira segundo sua inspiração original torna-se “Braxília”, um não-lugar feliz. Sua vocação melhor é a intervenção poética e o filme traduz graficamente essa disposição de espírito.

O outro filme da cidade, Falta de Ar, de Érico Monnerat, prefere voltar ao tempo da ditadura militar. Faz um paralelo entre um personagem que agoniza por problemas respiratórios e presos políticos torturados com a técnica do afogamento.

Matinta, de Fernando Segtowick, é o primeiro curta-metragem paraense a concorrer em Brasília e vem todo impregnado de espírito amazônico. Filmado na floresta, traz a lenda da Matinta-Perê (Matita, segundo outra variante), ser imaginário que pode adotar diversas formas ao atacar as pessoas. No elenco, a paraense Dira Paes, atriz global e musa do cinema independente brasileiro. O filme agrada pela singeleza de sua realização.

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