Diário de Brasília (2): a turma de São Bernardo
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Brasília (2): a turma de São Bernardo

Luiz Zanin Oricchio

19 de novembro de 2008 | 16h51

nildo
Othon Bastos e Nildo Parente no debate em Brasília

BRASÍLIA – Foi bem bacana o debate em torno da restauração de São Bernardo, do qual pouco pude transcrever em minha matéria para o jornal, por causa do horário de fechamento. O que dá para acrescentar é que o clima emocional da noite anterior prosseguiu hoje durante o debate. Maria Hirszman mais uma vez se emocionou ao falar do pai e da obra que ela e irmãos procuram recolocar em circulação. Vladimir Carvalho, o grande documentarista, lembrou, em longa fala, da sua relação de amizade com Leon. Carlos Augusto Calil, o secretário de Cultura de São Paulo, assinalou que São Bernardo foi um filme que veio num momento complicado da vida de Leon Hirszman, que tentava gerenciar uma crise dupla – política e existencial. De certa forma, disse Calil, é com São Bernardo que Leon se reassenta em seu compromisso político, de solidariedade aos mais humildes e crítica constante do capitalismo.

Aliás, antes de o debate no Hotel Nacional começar houve a projeção do documentário de Leon, Maioria Absoluta, de 1964. Um doc. porrada que tenta investigar o analfabetismo e suas raízes na sociedade brasileira. O filme faz parte dos extras do DVD de S. Bernardo. Na platéia, o cineasta Geraldo Sarno, disse que aquele tinha sido um dos documentários seminais, que guiaram sua carreira, colocando-o ao lado de Aruanda, de Linduarte Noronha.

Lauro Escorel, na época do filme um jovem fotógrafo e agora restaurador da cópia original, lembrou da precariedade das condições de trabalho em S. Bernardo e de como elas foram incorporadas à própria estética do filme. Máquinas de filmar pesadas, que levaram a um desenho de planos fixos, com alguns travellings e apenas duas sequências de câmera na mão.

Othon Bastos lembrou também que Leon exigia horas e horas de ensaio antes de filmar. “Não tínhamos o direito de errar, porque o negativo disponível era pouco”, conta.
Othon relembrou que uma determinada sequência tinha de ser feita em 4 minutos. Ensaiaram, durava seis. Foram enxugando as falas, colocando tudo no tempo disponível. Contaram de novo. Tinha 4 minutos. Então Leon disse: “Vamos rodar, mas, pelo amor de Deus, não errem”. E não erraram. Disse o ator que, terminada a cena, o diretor foi beijar cada um dos participantes, agradecendo.

A filmagem toda decorreu nesse clima fraterno. “Tínhamos uma ideologia, sabíamos que estávamos fazendo uma coisa importante”, disse Othon. Ele lembrou quando Leon um dia foi procurá-lo e perguntou se já havia lido S. Bernardo, de Graciliano Ramos. Othon disse que sim. Leon então o convidou para fazer o papel de Paulo Honório e Othon lhe respondeu que ele devia estar brincando, pois seu tipo físico em nada lembrava aquele do personagem descrito por Graciliano. “Eu não quero semelhança física; quero o que tem dentro de você”, lhe disse o diretor. Ao contar essa história, Othon não conseguiu segurar as lágrimas.

Enfim, foi um belo, um belíssimo momento, esse primeiro passo de um festival que havia começado sob o signo da desconfiança. Tomara continue assim.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.