As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Brasília (9): O martírio de um operário chamado fiel

Luiz Zanin Oricchio

21 de novembro de 2009 | 10h37

As mortes de Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e de Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976, ambas no Doi-Codi paulistano, levaram o presidente Ernesto Geisel a exonerar o comandante do II Exército, Ednardo d”Ávila Mello e, em seguida, o ministro do Exército, Sylvio Frota. Essa sequência é vista como a via que levou ao recuo da “linha dura” dentro do regime militar e abriu caminho para a abertura e a redemocratização do País.

A morte de Herzog foi ruidosa, mesmo em tempos de censura. Levou à realização de uma missa ecumênica na Catedral da Sé, entendida como desafio e interpretada como ato público que causou a primeira rachadura séria no regime.

A de Manoel Filho foi mais discreta. O Sindicato dos Metalúrgicos celebrou uma missa tranquila e depois se omitiu. Herzog era um jornalista, por isso seu assassinato teve enorme repercussão entre colegas e formadores de opinião. Classe média. Fiel Filho era um simples operário, vindo de Alagoas. Sua figura tende a ficar em segundo plano quando se fala nos mártires da redemocratização. O segundo longa-metragem concorrente do Festival de Brasília, Perdão, Mister Fiel, de Jorge Oliveira, tenta reparar essa injustiça.

A apresentação do filme no palco do Cine Brasília teve um momento tocante, com a presença das filhas e da viúva do operário assassinado, Thereza Fiel, que, emocionada, não conseguiu falar. Criou-se toda uma atmosfera favorável para a recepção do filme, pois, como se sabe, o público do Festival de Brasília tem fama de exigente, participativo e, acima de tudo, politizado. Vaia quando não gosta e não perdoa autoridades. É, de modo geral, um público de esquerda, se esse termo ainda tiver algum sentido, como parece ter. Pois bem, nem mesmo esse público, em tese a favor, suportou bem o ranço e o didatismo de Perdão, Mister Fiel. Algumas pessoas saíram durante a exibição e os aplausos foram moderados. Ouviram-se até algumas vaias.

Sobre o título: o “mister” entra por conta da preocupação em contextualizar a época, lembrando o intervencionismo norte-americano nas repúblicas sul-americanas. Para que não se diga que é o mesmo discurso anti-imperialista de sempre, falam alguns norte-americanos, brasilianistas ou acadêmicos especializados em América do Sul, que lembram a desestabilização de regimes democráticos por Washington e a exportação de técnicas de tortura. Ok, é tudo verdade, mas em nada avança a discussão.

Pouco úteis também são os depoimentos de autoridades como os dos presidentes José Sarney (vaiado pelo público), Fernando Henrique Cardoso e o atual, Lula. Soam oficiais. Muito melhor o longo depoimento de um ex-agente do Doi-Codi, Marival Chavez, capaz de falar com propriedade das entranhas do monstro. Também causa algum impacto a voz do general Geisel falando sobre o episódio. É transcrição de um trecho do longo depoimento que ele concedeu à pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, Maria Celina d”Araújo, que também dá depoimento no filme. A partir desses depoimentos, Maria Celina e Celso Castro escreveram um precioso livro sobre o governo Geisel (Ernesto Geisel, FGV, 1997).

De fato, o depoimento de Geisel é importante porque permite colocar em dúvida o caráter democrático do general-presidente. O que parece incomodá-lo não são tanto as mortes ocorridas sob tortura em porões do regime, mas o fato de expressarem indisciplina e quebra de hierarquia no comando. “Parecem provocação”, diz. Assim, é o militar rígido, cioso da disciplina e da hierarquia, que desarticula a linha-dura, e não o democrata fardado que teria por objetivo abrir o regime e devolvê-lo aos civis. Ironias da história.

Outro depoimento importante é o do ex-militante Antonio Flores, codinome Fiori, que era o verdadeiro alvo dos órgão de repressão. Ele esclarece: “Manoel Fiel Filho não morreu no meu lugar; ele era um militante do Partidão e morreu como um digno comunista.” Se o filme é esclarecedor neste e em outros pontos, na maioria das vezes torna-se apenas redundante. É preciso voltar, sempre e cada vez mais, ao período militar. Mas é bom fazê-lo com sentido de inovação, tentando iluminar o que ainda não foi esclarecido, como é o caso, por exemplo, de Cidadão Boilesen, que põe a nu a colaboração do empresariado com a repressão.

O pior são as encenações, realizadas por atores, da prisão, tortura e morte de Manoel Fiel Filho, bastante constrangedoras, para dizer o mínimo. Como não podia se sustentar apenas nos depoimentos, e nem no material de arquivo, Perdão, Mister Fiel, usou do recurso da encenação. E, assim fazendo, recai numa dramaturgia fraca e datada. É pena que tema tão importante tenha se debilitado nessa forma tosca. “Não sei dirigir atores, minha base é documental”, disse Jorge Oliveira, que é jornalista de formação. “Se o filme puder reabrir o processo de Manoel Fiel Filho em São Paulo, me darei por satisfeito”, disse.

CURTAS

Bailão, de Marcelo Caetano (SP), foi a melhor surpresa da noite. Visão delicada sobre uma geração homossexual de idade mais avançada, que não pegou a época atual de liberalização e teve de viver a sexualidade de forma reprimida, em cinemas, boates e saunas, além do “bailão”, que dá título e fica no centro de São Paulo. Os depoimentos se dão de forma desvinculadas das imagens – estas, aliás, retratam uma cidade esquecida, do centro, das ruas antigas, das velhas galerias, como a Metrópole.

Água Viva, de Raul Maciel (RJ), aposta em imagens bem construídas e alusivas para tocar nos temas da sexualidade e da gravidez. É filme que insinua e deixa com o espectador a construção do sentido. Busca a sensorialidade, através do qual se esboça a narração. A influência da cineasta Lucrécia Martel é perceptível.

(Caderno 2, 21/11/09)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: