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Diário de Brasília (8): A alegria de uma época bem terrível

Luiz Zanin Oricchio

20 de novembro de 2009 | 19h50

Depois do estardalhaço e das emoções contraditórias com a pré-estreia nacional de Lula, o Filho do Brasil, o Festival de Brasília retoma o seu pulso normal e exibe ao público o primeiro concorrente, o documentário Filhos de João, Admirável Mudo Novo Baiano, de Henrique Dantas. Panorama da música popular brasileira dos anos 60 e 70, tendo por foco o grupo Novos Baianos, o filme foi muito bem recebido, o que costuma acontecer com documentários musicais em festivais.

Mas este tem um diferencial. Mais que evocação de um grupo musical, evoca toda uma época, toda uma mentalidade do qual o grupo integrado por Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Moraes Moreira, Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Gato Félix e Dadi funciona como espécie de alegre porta-voz. O que se pode dizer é que o filme entra no clima libertário do desbunde, típico do início dos anos 70. Como lembrou Galvão, no palco, “nós éramos a alegria em meio a uma época terrível”. O que não era pouca coisa, como pode testemunhar quem se lembra daquele tempo de ditadura militar.

O filme tem uma estrutura de mosaico, ligando depoimentos e material filmado de época. Há um conceito, já presente no título, de que todos são, de alguma maneira, “filhos de João”. Isto é, de João Gilberto, que não aparece no filme. “Passei dez dias no Rio de Janeiro tentando entrevistá-lo, mas não consegui”, diz o diretor. “Ele é um cara que tem presença no palco e na música, mas não fora dela, na mídia, ou em projetos como o meu.” Enfim, alguém deveria ter dito que é mais fácil conseguir uma exclusiva com Barack Obama do que com João, mas como não sabia, tentou. E não conseguiu. Mas, mesmo não conseguindo, incorporou João como conceito.

Presença que se justifica porque João Gilberto teve uma influência decisiva sobre o grupo. Quem conta toda a história, com muita graça, é Galvão, nascido em Juazeiro. “Tinha lá uma placa contando que João, eu e Ivette Sangallo éramos filhos de Juazeiro. Agora, entrou um prefeito de outro partido e tiraram.” Galvão conta que foi do encontro entre João e alguns dos membros do conjunto, em especial Pepeu, Baby e Moraes Moreira, que Os Novos Baianos foram tendo a pegada de samba e rock que virou uma marca registrada. O filme inclui também um diálogo com o cinema baiano, em especial o cinema underground, com inclusão de cenas de Meteorango Kid, de André Luis de Oliveira, e Caveira, my Friend, de Álvaro Guimarães.

Baby Consuelo, aliás, Baby do Brasil, deu entrevistas geniais ao filme, conta o diretor, mas as cenas não puderam ser incluídas porque não houve acordo comercial. A cantora aparece em cenas de época, na famosa comunidade em que os Novos Baianos viviam no interior do Estado do Rio, mas não nas entrevistas que deu. “O último depoimento do filme era dela, um questionamento geracional, em que ela perguntava onde estavam aqueles que queriam mudar o mundo nos anos 70 e agora haviam se transformado em conformistas. É lindo.” Mas não houve jeito. “Fiquei frustrado porque ela é uma mulher muito forte e o filme ficou privado disso. Resolvi colocar um aviso no final dizendo que o depoimento não poderia ser incluído, e fiz isso por respeito ao público.” O diretor ainda espera que, no futuro, consiga obter uma autorização. Mas, de qualquer modo, o filme teve de seguir outro caminho com essa negativa.

O que se pode dizer é que Filhos de João, apesar dos problemas que atravessou para ser realizado, consegue o que talvez seja mais difícil nesse tipo de projeto: captar de maneira muito viva o espírito de uma época, que não foi vivida pelo diretor, nascido em 1972. Faz isso através do depoimento não só dos integrantes da banda, mas de quem com eles conviveu como Tom Zé (maravilhoso), Orlando Senna e Rogério Duarte, entre outros. Tom Zé, em especial, com suas observações tão profundas como surpreendentes, funciona com uma espécie de âncora, um coro grego, que vai comentando e dando liga às peças que compõem esse mosaico. Material raro como os filmes em super-8 dos Novos Baianos jogando futebol, tocando, fumando seus baseados dão um clima todo especial, que imantou o público do Cine Brasília. Foi muito bom como primeira noite de competição.

CURTAS

Bom começo também para os curtas em 35 mm. Nada excepcional, mas os dois concorrentes apresentados foram convincentes. Conseguiram comunicar-se com o público, o que nem sempre é fácil. Homem Bomba, de Tarcísio Lara Puiati (RJ), procura um retrato menos convencional da guerra do tráfico nos morros cariocas. Os personagens são dois garotos que trabalham para o “movimento” e dialogam enquanto vigiam a entrada do morro de um ponto de vista privilegiado. Opta por um final um tanto mágico, mas que não carece de encanto.

Amigos Bizarros do Ricardinho, de Augusto Canani (RS), aposta na veia cômica. E ganha a parada com seu personagem estranho, o tal Ricardinho e suas histórias e personagens pouco convencionais. A qualidade técnica é boa, mas a filmagem parece bastante convencional. Atinge o que pretende – ser um bom filme-piada, que se vê bem, mas uma única vez.

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