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Diário de Brasília (4): Lula e o melodrama

Luiz Zanin Oricchio

19 de novembro de 2009 | 10h55

BRASÍLIA – Tão cedo Brasília não irá esquecer a pré-estreia de Lula, o Filho do Brasil. Teatro Nacional lotado, aliás, superlotado, com políticos, autoridades e artistas sem lugar para sentar, gente se acotovelando pelos corredores, calor, ameaças de tumulto e manifestação no palco em prol da libertação do ativista italiano Cesare Battisti. Confusão, sim, mas moldura talvez perfeita para uma obra que, de acordo com seu diretor, Fábio Barreto, mais que a trajetória de um personagem emblemático, queria mesmo era prestar uma homenagem ao povo brasileiro, naquilo que ele tem de melhor.

E o que seria esse melhor? Ao que parece, uma qualidade já destacada por uma peça publicitária – o brasileiro não desiste nunca. É o que diz ao filho dona Lindu (Glória Pires) o tempo todo: “É preciso teimar.” O exemplo era esse. A própria história da mãe de Lula é um exemplo de persistência, e também uma espécie de eixo ético da história. Casada com um alcoólatra violento, cria os filhos sozinha depois de largar o marido e mantém como ponto de honra que eles sejam honestos e trabalhadores. Pura teimosia, diante de um destino que não cessa de pregar peças à personagem.

A própria vida de Lula se parece à de um personagem de ficção, com todos os ingredientes necessários para ser transformada em exemplo de superação em condições adversas. Sua trajetória é folhetinesca, digna de um personagem de Hugo ou de Dickens e inclui pobreza, viagem em pau-de-arara para o Sudeste, infância miserável no litoral, brigas com o pai, a dificuldade para estudar, a militância sindical, a política, as candidaturas sucessivas até a chegada à Presidência. Teimosia pura. A “tese” do filme é que essa disposição mental da mãe passa ao filho e o leva ao seu destino. É dessa maneira que o diretor justifica as cenas finais, com imagens documentais da posse de Lula, em janeiro de 2003, depois de três tentativas frustradas de eleger-se. “Não poderia deixar de mostrar o fruto dessa teimosia”, diz Fábio Barreto.

Bastante sereno, depois da agitada sessão da noite anterior, o diretor disse que se preparou muito para o projeto: “Me preparei para fazer um baita filme. Me informei muito, me concentrei, entrevistei mais de 200 pessoas, entre amigos, sindicalistas, prefeitos e autoridades. Hoje eu posso dizer que entendo de movimento sindical como talvez ninguém no Brasil.” Quanto às críticas a respeito da linguagem cinematográfica da obra, Fábio diz que tinha muito claro o que desejava fazer. “Eu queria um melodrama mesmo. Um melodrama épico. Nada além disso. Queria ir fundo nas emoções. A partir daí, se for possível algum tipo de reflexão, ótimo.”

A maneira como Lula é caracterizado, como herói sem mácula, foi questionada na entrevista. Fábio Barreto disse que procurou mostrar momentos de fraqueza do personagem, suas dúvidas, como quando perde a primeira mulher, morta com o filho em trabalho de parto. Mas o fato é que algumas passagens mais polêmicas foram limadas. Por exemplo, quando Lula abandona uma mulher, Miriam Cordeiro, grávida de Lurian, o que acabou virando peça acusatória na eleição de 1989, em que Collor o derrotou. “Só podemos trabalhar com autorizações das pessoas citadas e retratadas; e a Miriam Cordeiro não nos deu essa autorização”, explica a produtora Paula Barreto.

Outro ponto questionado se dá quando, numa greve do início dos anos 1960, o gerente de uma pequena empresa é morto pelos grevistas. No livro de Denise Paraná, em que se baseia o filme, Lula entende que se trata de um ato de justiça, pois grevistas também haviam morrido. No filme, ele se revolta contra a violência dos companheiros. Não seria um retoque no retrato do biografado? A autora, que é também corroteirista, entende que não: “Tentamos captar o que seria a alma de Lula, e ele sempre foi um pacifista. Basta dizer que, quando assumiu a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos, sua primeira providência foi abolir o piquete violento e trocá-lo pela tentativa de convencer os trabalhadores de que eles não deveriam entrar nas fábricas”, diz Denise.

O fato é que um retrato mais multifacetado talvez gerasse um personagem mais completo do que esse que está na tela – muito bem interpretado, aliás, por Rui Ricardo Diaz. Também é ótima a atuação de Gloria Pires como dona Lindu, a mãe. Ambos driblam diálogos que são às vezes muito fracos. Gloria, em especial, diz muito com o rosto, mais do que com as palavras, como na cena muito bonita em que assiste à formatura do filho como torneiro mecânico. Outra sequência forte é o comício liderado por Lula, no qual, por falta de equipamento de som, as palavras do orador têm de ser repetidas para o os que estão atrás e assim sucessivamente, por todo o estádio, como numa onda humana. Nesse momento há cinema de verdade na tela. E, portanto, emoção genuína. Lula, o Filho do Brasil é um filme muito bem produzido. Caso optasse por trabalhar com personagens menos unidimensionais, poderia ter ambicionado voo mais alto.

(Caderno 2, 19/11/09)

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