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Diário de Brasília 2015 (9). De olho nos Candangos

Luiz Zanin Oricchio

22 de setembro de 2015 | 18h23

 

BRASÍLIA. Hoje é a noite de entrega dos Prêmios “Candangos”, o troféu do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, criado em homenagem aos pioneiros que construíram a Capital do País, nos anos 1950, sob o governo de Juscelino Kubistchek. Quem serão os vencedores? Ora, tudo é especulação. Depende da cabeça (coletiva) do júri. Ainda mais porque não existe um favorito disparado nessa mostra de bons concorrentes.

Acho que se impõe pela originalidade e intensidade o thriller amoroso Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba, com uma atuação em estado de graça, pelo minimalismo, de Fernando Alves Pinto. Ele interpreta o viúvo que se descobre traído pela mulher morta através de uma fita de vídeo. Engendra talvez uma vingança, buscando encontrar o amante (Lourinelson Vladimir, uma opção para coadjuvante). Ótimo filme, uma bela estreia na ficção de longas deste diretor baiano, radicado em Curitiba.

Big Jato é o mais poético dos trabalhos de Claudio Assis, bicampeão em Brasília com Amarelo Manga e Baixio das Bestas. Baseado no romance memorialístico de Xico Sá, conta a história de um adolescente cujo pai é limpador de fossas, dono do caminhão que dá título à obra. Matheus Nachtergaele, magnífico, interpreta dois papéis, o do pai do menino e seu tio, gêmeos de temperamentos opostos ou talvez complementares. Marcélia Cartaxo, como a mãe, é igualmente comovente. Candidata forte a melhor atriz.

Fome, de Cristiano Burlan, é o trabalho mais experimental da mostra. Numa São Paulo fotografada em preto e branco, um morador de rua deambula, empurrando seu carrinho. Quem faz o sem-teto é o grande ensaísta Jean-Claude Bernardet, turbinando sua carreira de ator. A Família Dionti, de Alan Minas, conta uma fábula interiorana, com ares de realismo mágico. Tem frescor, certa ingenuidade e traços de originalidade, fatores que cativam e o levam além do público-alvo, o infanto-juvenil.

Prova de Coragem é a versão de Roberto Gervitz para o romance Mãos de Cavalo, de Daniel Galera. Armando Babaioff e Mariana Ximenez fazem o casal em crise, cujo casamento entra de vez em parafuso quando ela fica grávida. Ele é praticante de escaladas e decide subir a uma montanha perigosa da Patagônia enquanto a esposa desafia uma gravidez de risco submetendo-se a uma rotina exaustiva de trabalho. Ele é cirurgião plástico, ela artista plástica. Ele tem algo em seu passado e parece querer se provar. Mas Gervitz dribla o clichê norte-americano da “segunda chance” (na qual o protagonista falha na primeira vez mas se redime na segunda) e encaminha o drama para desfechos pouco evidentes.

O filme é bem-feito, bem construído, bem fotografado e bem interpretado; as imagens têm foco e, além disso, conta com coprodução da Globofilmes – características suficientes para tornar-se detestado por parte da crítica. E, talvez, por alguns jurados do festival, como se andou comentando à boca pequena, pelos corredores.

Por fim, Santoro – o Homem e sua Música, de John Howard Szerman, único documentário em concurso. De feitio tradicional, joga luz sobre a trajetória complexa do compositor amazonense, radicado em Brasília. Santoro (1919-1989) foi músico original e versátil, operando no sistema tonal, no dodecafonismo ou na música eletroacústica. Dele, só se conhece o lado “nacionalista”, talvez sua faceta menos interessante. O filme foi tachado de “televisivo” e didático. Argumentei que me abriu toda uma vertente da obra de Santoro que eu não conhecia. Mas me disseram que o conteúdo não interessa. Ok, talvez meus colegas conheçam mais de música contemporânea do que eu. Nunca se sabe.

Nessa disputa equilibrada e de bom nível, o júri terá trabalho para destacar os melhores, sem cometer injustiças. O júri de curtas também dispõe de bom material para se exercitar. A seleção foi boa. Alguns destaques: Rapsódia para um Homem Negro, A História de uma Pena, A Outra Margem, O Sinaleiro e Quintal (este já exibido em outros festivais).

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