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Diário de Brasília 2015 (8). Santoro – o Homem e sua Música

Filme joga luz sobre a obra do compositor amazonense Claudio Santoro

Luiz Zanin Oricchio

21 de setembro de 2015 | 19h45

Santoro – o Homem e sua Música, de John Howard Szerman, é o único documentário em concurso. De feitio tradicional, joga luz sobre a trajetória complexa do compositor amazonense, radicado em Brasília. Santoro (1919-1989) foi músico original e versátil, operando no sistema tonal, no dodecafonismo ou na música eletroacústica. Dele, só se conhece o lado “nacionalista”, talvez sua faceta menos interessante. O mínimo que se pode dizer do filme é que estimula quem o vê a ouvir Santoro. Só por isso já vale.

Pode não ser muito, quando se pensa em termos de cinema. E a sala de debates, semideserta, indicava que a maior parte dos jornalistas se desinteressara do filme. No entanto, a conversa com John Howard, com Fernando Bicudo (que dá depoimentos) e Andres Artesi, técnico de som, foi muito boa. Howard tem uma rica experiência cinematográfica e Fernando Bicudo é uma espécie de celebridade da música erudita, desde que voltou do exílio para dirigir o Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

No debate, Howard contou uma história interessante, em especial para nós, de São Paulo. Negociava os direitos de imagens da TV Cultura, quando assumiu a presidência Marcos Mendonça e demitiu mais de 200 funcionários, entre os quais os do Departamento Jurídico com o qual Howard conversava. Em seguida, assumiu um escritório de advocacia, terceirizado, e este entendeu que era melhor negociar uma parceria. Seria assim: os cerca de 11 minutos de Santoro pertencentes à TV seriam cedidos ao filme, mas só poderiam ser exibidos quando fossem ao ar pela própria Cultura. Nas outras cópias, exibidas em cinema, outras TVs ou em qualquer parte, teriam de ser retirados. O que exigiria duas montagens diferentes para o filme. “Exigência impossível”, diz Howard que, desse modo, teve de abrir mão de imagens preciosas, como as do próprio maestro regendo sua 7ª Sinfonia.

Perguntei a eles por que, de certa forma, Santoro ficara de fora do mainstream erudito brasileiro, ocupado, na ponta, por Heitor Villa-Lobos. A explicação de Howard é que Santoro, por ser comunista, tivera dois regimes contrários durante a vida – o de Vargas e o da ditadura militar de 1964. Vivera, também em consequência disso, períodos extensos fora do país. Tudo está no filme. “Além disso”, completou Fernando Bicudo, “a maior parte das partituras de Santoro não estão editadas. O governo brasileiro deve isso a Santoro, um dos nossos três maiores compositores eruditos de todos os tempos. Um memorial e a edição de sua obra”, falou.

E disse.

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