Diário de Brasília 2015 (7). A poética de Big Jato
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Diário de Brasília 2015 (7). A poética de Big Jato

Luiz Zanin Oricchio

21 de setembro de 2015 | 11h53

Matheus Nachtergaele, em Big Jato

Matheus Nachtergaele, em Big Jato

Brasília. Depois do caso da vaia, escrevo sobre o filme. Big Jato, em minha opinião, abre novo caminho para Claudio Assis. Seu cinema vinha numa linha evolutiva coerente, porém, a meu ver, conduzindo a um impasse temático e de linguagem. Amarelo Manga, Baixio das Bestas, Febre do Rato. Um certo brutalismo de pegada social, mesclado ao poético, intensificado de filme a filme. Agora, com Big Jato, tirado do livro ficcional-memorialístico de Xico Sá, Claudio encontra um frescor, uma liberdade narrativa e poética que, para mim,não mostrava desde a estreia em longas, com Amarelo Manga.

Claro, cinema é obra coletiva, e o livro de Xico, muito bom, aliás, chega a Assis filtrado pelo roteiro, sempre criativo, de Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco. Trata-se de uma obra de formação, que os alemães chamam de Bildungsroman. Nela, Xico, e Claudio, por via interposta do roteiro, contam a história do adolescente cujo pai é dono do caminhão limpa-fossa apelidado de Big Jato. Literalmente, o Velho (Matheus Nachtergaele) sustenta a família com a merda que recolhe da vizinhança. O filho e ajudante (Artur Maia) é o alterego de Xico Sá. Acompanha o pai na dura labuta de limpar a sujeira alheia e acalenta o sonho de ser poeta. O pai odeia a ideia. É um homem da prática, como costumam ser os que ganham a vida com o suor do corpo – e a flagelação das narinas, neste caso em particular.

O “outro” da história é o tio Nelson, irmão do limpa-fossas, também interpretado por Nachtergaele. Ele é um radialista, vagal assumido, anarquista, amante da música dos Beatles e mentor intelectual e poético do jovem sobrinho Xico. Na entrevista, Matheus Nachtergaele, brilhante como sempre, disse que, a princípio, pensou estar interpretando dois papeis no mesmo filme, trabalhando dobrado. Isso até descobrir que Nelson e Xico eram duas vertentes do mesmo personagem. Não apenas protagonista e antagonista (embora também o sejam), mas uma dessas dualidades complexas de que é feito um bom ser humano – e também um bom personagem. Não representam o bem e o mal, mas contêm em si o bem e o mal. Ambos têm defeitos e qualidades, grandezas e baixezas e, embora tão diferentes, convergem em pontos importantes. “São como os dois lados de um zíper, que se juntam pelo fecho”, diz Nachtergaele, em bela e rigorosa metáfora.

Aliás, de metáforas, o filme está repleto. Os personagem vivem no alto sertão do Cariri, região que, em eras passadas, teria sido coberta pelo oceano. Daí estar hoje coalhada de fósseis de peixes. O sonho do adolescente, candidato a poeta, é ver o mar. Então temos o mar fóssil do interior e o mar real do Recife, que é para onde o jovem se encaminha para romper com o passado e iniciar nova vida. Mas inicia mesmo, ou estará para sempre preso nos locais onde constrói e moram suas primeiras e mais marcantes lembranças? Ou seja, a presença autoritária, porém digna do pai. A influência libertária e um tanto irresponsável do tio. O calor amoroso da mãe (Marcélia Cartaxo, magnífica) e a convivência com os irmãos. Os amigos um tanto brutais e a iniciação sexual no bordel (como era de rigueur na região e na época). De tudo isto é feito um homem e, mais ainda, um homem escritor, condenado, de qualquer forma, a ecoar em seus escritos as sutis madeleines de sua formação. Poeta autoconstruído, deixa para sempre sua terra de origem. É, porém, condenado à errância, a não ter pouso, mar calmo onde jogar âncora. E a pensar que, no fundo, só pertence mesmo a um lugar: aquele de onde veio, que deixou para trás e ao qual nunca mais voltou, sem deixar de nele pensar todo santo dia. Muito bonito.

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