Diário de Brasília 2015 (6). Vaias no festival
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Brasília 2015 (6). Vaias no festival

Luiz Zanin Oricchio

20 Setembro 2015 | 00h59

Claudio Assis no palco do Cine Brasília, tentando domar as vaias. Foto de Rô Caetano

Claudio Assis no palco do Cine Brasília, tentando domar as vaias. Foto de Rô Caetano

BRASÍLIA. O diretor Claudio Assis foi vaiado e quase não conseguiu apresentar seu filme Big Jato à plateia do Cine Brasília. Além de ser apupado, foi brindado com um coro de “machista, machista” por um grupo presente no Cine Brasília. Tudo é repercussão da polêmica recente que envolveu Claudio, outro diretor pernambucano, Lírio Ferreira, e a cineasta paulista Anna Muylaert. Em debate do filme Que Horas Ela Volta?, de Muylaert, realizado no Recife, os dois foram inconvenientes e, com suas intervenções, atrapalhando a discussão do filme, que se dava no Cine da Fundação Joaquim Nabuco. Estariam alcoolizados. A instituição reagiu proibindo a presença dos dois no local por um ano e também a exibição dos seus filmes pelo menos período.

A diretora Anna Muylaert, no Facebook, disse que desaprovava o comportamento dos colegas, que são também seus amigos pessoais, mas não queria que fossem hostilizados por isso. Depois, em entrevistas, atribuiu ao “machismo” de ambos a atitude durante o debate. De acordo com a interpretação de Anna, Cláudio e Lírio sentiram-se incomodados ao ver uma mulher (ela mesma) ocupando o centro das atenções.

A polêmica repercutiu no Festival de Brasília. Vaiado, Claudio tentou falar várias vezes ao microfone e não conseguiu. Quem contornou a situação, com extrema habilidade, foi o ator Matheus Nachtergaele, que interpreta dois papeis em Big Jato. Com boa retórica e carisma, conseguiu reverter as vaias em aplausos e evitou o pior. Mesmo assim, Claudio Assis ainda tentou falar e disse algumas palavras. Mas não se fez entender, abafado que foi pelo grupo que vaiava, enquanto outros aplaudiam.

Em tal caso é difícil dizer quem tem razão. Ou total razão. A inconveniência de um comportamento justifica o linchamento moral dos autores? Ou vivemos um clima em que sempre é necessário eleger um inimigo de ocasião e hostilizá-lo de modo que não possa se expressar? Eis aí um caso típico em que tenta-se reparar um erro comentendo-se outro. O fato é que o germe da intolerência está entre nós e só não vê isso quem não quer.

Ah, sim. O filme é maravilhoso. No final, o mesmo grupo ainda tentou vaiar. Mas, desta vez, perdeu feio para os aplausos.