Diário de Brasília 2015 (5). Para Minha Amada Morta
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Diário de Brasília 2015 (5). Para Minha Amada Morta

Luiz Zanin Oricchio

19 de setembro de 2015 | 11h15

Brasília. Primeiro longa de ficção de Aly Muritiba confirma o talento desse cineasta baiano radicado no Paraná. Autor de um curta de muito sucesso, A Fábrica, e de um documentário sobre o sistema penitenciário, A Gente, Muritiba agora investe numa espécie de suspense amoroso-existencial. O público do Cine Brasília reconheceu e o longa foi o mais aplaudido até agora.

Fernando (Fernando Alves Pinto) é um fotógrafo, que exerce a profissão na polícia científica, e realiza um penoso trabalho de luto. Há pouco perdeu a esposa, e cria sozinho o filho pequeno. Como em todo o processo de luto, há a questão: o que fazer com os objetos do ser amado que se foi? Fernando separa vestidos, sapatos, joias, vagarosa e penosamente. Mostra ao filho, uma outra doce recordação. Um vídeo, com a mãe dançando um balé, quando ainda era bem mocinha. Há outros vídeos caseiros. Um deles mostra o que Fernando não desejaria ver. E a imagem da amada morta, por assim dizer, desaba.

O que fazer em seguida? Assimilar o golpe, desconstruir uma imagem? Talvez tudo isso. Mas Fernando resolve usar seus dons investigativos para descobrir a identidade de um suposto amante da mulher morta.

Temos aí então a armação de uma espécie de thriller, bem diferente dos que o espectador se acostumou a ver. Inclusive pelo ritmo. Nesse sentido, Muritiba se beneficia do estilo cool de Fernando Alves Pinto. Não há um gesto, uma expressão facial que seja desmedida. Pelo contrário. Tudo nele conspira para a mais absoluta discrição. E, no entanto, tal como aranha que tece a sua teia, silencioso e discreto, envolve e abraça não apenas o desafeto como toda a sua família.

Num filme em que as expectativas do espectador ávido por clichês são sistematicamente recusadas, o diretor se esmera ao se mostrar um mestre do tempo. Há quem entenda, porém, que, a certo ponto, a narrativa se esgarça, exatamente pelo controle dessa dimensão da temporalidade, das falas ralas e das esperas. Não é minha maneira de ver. O ritmo, pelo contrário, me pareceu bastante apropriado para mostrar o estranho caminho seguido pelo trabalho de luto do fotógrafo Fernando. Ótimas interpretações, também, de Lourinelson Vladimir, como Salvador, e Mayana Neiva, como Raquel.

Curtas. Cidade Nova, de Diego Hoefel. Cidade Nova mostra um personagem que tenta voltar para a sua cidade de origem até descobrir que ela não existe mais. Foi coberta pelas águas. Uma certa melancolia e estranhamento. Mas o filme não decola.

Rodrigo Carneiro, diretor de Copyleft, fez um bonito discurso no palco. Lembrou que, num momento de maior respeito à diversidade sexual, o Brasil dá marcha-a-ré (nesta e noutras questões), e se afunda em posições conservadoras. Retrógradas mesmo. Na tela, o seu média-metragem (29′) não parece tão incisivo assim. Ousado, é. E não deixa de haver beleza e empatia em relação ao personagem principal, que se debate em torno de sua própria sexualidade. Mas o formalismo de algumas passagens esfria um tanto o projeto. Assim como a presença de uma espécie de deusa pansexual, interpretada por Elke Maravilha.