Diário de Brasília 2015 (3). Fome
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Diário de Brasília 2015 (3). Fome

Luiz Zanin Oricchio

18 Setembro 2015 | 11h54

Jean-Claude Bernardet. Foto de Júnior Aragão

Jean-Claude Bernardet. Foto de Júnior Aragão

 

BRASÍLIA. O Festival continuou interessante em sua segunda noite de competição. O longa apresentado foi Fome, de Cristiano Burlan (conhecido por seu duro documentário Mataram Meu Irmão, premiado em vários festivais). Neste trabalho, Burlan lança seu olhar sobre os moradores de rua. Ou melhor, sobre “um” morador de rua, representado por Jean-Claude Bernardet, um dos maiores estudiosos do cinema brasileiro, professor da USP, e que agora vem se dedicando com afinco à carreira de ator. Bernardet empurra seu carrinho pelas ruas de uma São Paulo, hostil, áspera e às vezes até mesmo bela, fotografada em registro preto e branco.

Fome destaca-se pela qualidade de tratamento do tema. Não cai na complacência cristã de outras abordagens e, por isso mesmo, registra sem contemplação o profundo mal-estar e o incômodo da “situação de rua”, como esta é chamada pelos órgãos oficiais.

Há, porém, um “momento Jean-Claude”, quando, como ocorre com frequência nos filmes em que atua, a persona do grande ensaísta se impõe sobre o papel representado. É quando o morador de rua é abordado por um ex-aluno (o crítico Francis Vogner), que o reconhece. Travam, então, um diálogo ácido, um acerto de contas em que ideias interessantes são discutidas. Sobre o cinema e sobre a vida. E sobre a maneira como ambos se articulam. Ou não.

Este não é a única passagem em que uma espécie de meta-reflexão se sobrepõe à dramaturgia. Há também uma moça que faz seu mestrado sobre moradores de rua e tenta entrevistar o personagem. Ele resiste. E canta para ela uma canção francesa (não esqueçamos que nosso personagem é francês, nascido na Bélgica). Mais tarde, ela irá desabafar com seu orientador de tese que de fato não estaria ajudando o morador de rua, mas apenas usando-o como sujeito para seu trabalho acadêmico. E, talvez, ainda mais profundamente, para aplacar sua consciência culpada. Consciência “burguesa”, como o próprio Jean-Claude se expressa, insultando motoristas parados no semáforo em seus carros de vidros fechados. Cena comum na metrópole do medo.

Curtas. Dois bons curtas, também, nesta segunda noite. Tarântula, de Aly Muritiba, usa a atmosfera de suspense para contar a história de duas garotas irmãs, que recusam (e de maneira muito violenta) a presença do padrasto. Em Rapsódia para o Homem Negro, Gabriel Martins se vale de lendas afro-brasileiras para estabelecer relações com a violência e discriminação atual contra os negros. Os dois muito bem construídos e criativos.