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Diário de Brasília 2014. Mortos na Praia

Luiz Zanin Oricchio

22 Setembro 2014 | 14h02

 

Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro, parece, como defini no debate, um documentário que não ousa dizer seu nome. Nada há de ofensivo nisso. Pelo contrário. Alguns dos filmes que mais admiro – como Iracema, de Bodanzky & Senna, e Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo – têm forte base documentária e a colocam a serviço de uma linha ficcional.

Desse modo, Mascaro e equipe se deslocam a um lugarejo semi-isolado no litoral de Alagoas e flagram o cotidiano da comunidade. Nesse meio, há a ficção: o romance entre Shirley, que veio da cidade cuidar da avó idosa, e o pescador e catador de cocos Jeison. Há algumas cenas tórridas entre os dois, mas nada explícito. Cenas de pesca submarina, o encontro de algumas ossadas, etc.

Mascaro conta que foi atraído por um registro de que as marés altas estavam invadindo o cemitério local e desenterrando restos mortais, que assim desembarcavam nas praias. Com isso, introduz a temática da morte, que é tratada de maneira muito natural pelos habitantes. Embora estes não interpretem seus próprios papeis, estão presentes na filmagem ficcional. Há um sabor de “verdade” no texto fílmico. Ao mesmo tempo, uma deriva talvez deliberada ao que se oferece ao acaso, no processo de filmagem. Como se não houvesse ideias preconcebidas ao filme e este se construísse no processo. Algo como o caminhante do poeta Antonio Machado: Caminante, no hay camino/Se hace camino al andar.

O processo documental é de fato um pouco assim. Não há controle (pelo menos controle total) sobre os personagens. E, desse modo, o filme se constroi primordialmente por seus acidentes de percurso. Aliás, o mais famoso documentário brasileiro, Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho (leia abaixo), se fez porque a filmagem inicial foi interrompida pelo golpe de 1964 e retomada 17 anos depois. Sem isso seria outra obra.

Dito isso, Ventos de Agosto me parece um filme interessante, com alguns momentos sensíveis e certo impacto de imagem. Falta-lhe, como falta a quase toda a produção autoral contemporânea, uma elaboração maior sobre os fundamentos da obra. É como se não tivesse um eixo e fosse seguindo meio aleatoriamente, com bons achados aqui, outros menos bons ali. Essa indeterminação, hoje, é uma espécie de blue chip na bolsa de valores da estética e é encarada como indiscutível, até mesmo para a crítica que, por dever de ofício, deveria se empenhar mais em desconstruir (no sentido de ver do que é feita) a obra do que em elogiá-la publicamente. Mas, enfim, essa indefinição de propósitos, que atinge os cineastas, também contamina quem deveria pensar o cinema.

Por isso, achei de todo irrelevante a comparação entre Ventos de Agosto e Barravento, que foi feita no debate a propósito de citação de não sei qual crítico europeu, que viu o filme em Locarno. A meu ver, a única aproximação entre os dois filmes é o fato de terem sido rodados em paisagens litorâneas relativamente isoladas (como são as praias alagoanas e como era a de Buraquinho na época de Glauber Rocha). Para o bem e para o mal, havia no projeto de Glauber (que começou a ser tocado por Luiz Paulino dos Santos), uma ideia central a orientar a obra. Ou seja, a aldeia de pescadores, na qual o dono da rede e do barco exerce o domínio, amparado pela religião. Essa estrutura de exploração é abalada pela chegada por um elemento estranho à comunidade (Antonio Pitanga, que dali saiu e está de volta depois de ter morado na cidade) e coloca uma dimensão de conflito bem palpável. Talvez essa ideia de base orientasse demais a ficção, inibindo-lhe a liberdade, a fantasia, etc. Em nome da liberdade total, a nova ficção brasileira arrisca-se a ficar sem ideias. É tudo muito bonito, às vezes muito estimulante, mas…e daí?

Cabra Marcado

No quadro das atividades paralelas do Festival, destacou-se o seminário em homenagem ao cineasta Eduardo Coutinho, assassinado em fevereiro deste ano. Participaram do debate os diretores Beth Formaggini, Zelito Viana e Carlos Nader, além do ensaísta e agora ator Jean-Claude Bernardet e o editor Milton Ohata, responsável pela edição de um extraordinário volume de cerca de 700 páginas dedicado ao grande documentarista de Cabra Marcado para Morrer.

Jean-Claude, respondendo a uma provocação de Zelito Viana, que se perguntava o que seria de Cabra Marcado caso não fosse interrompido pela ditadura, lançou uma ideia estimulante: “Acho que se a primeira filmagem tivesse ido até o fim, toda a história política do Cinema Novo seria diferente.” Jean-Claude desenvolveu a ideia de que outros clássicos do Cinema Novo, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, se localizaram em tempos diferentes daquele em que foram rodados. Ambos nos anos 1930 ou 1940, enquanto Cabra situava-se em plenos anos 1960, no ambiente das Ligas Camponesas e diante do assassinato do líder João Pedro Teixeira, ocorrido em 1962.

Num depoimento emocionante, o curador da mostra e documentarista Vladimir Carvalho lembrou da sua participação nas filmagens de Cabra Marcado para Morrer. De como fez para convencer camponeses que nunca haviam entrado numa sala de cinema de que tudo aquilo era uma encenação, ao momento tenso e ambivalente em que o golpe foi anunciado, dando fim às filmagens. “No começo pensávamos que era a revolução socialista”, disse, arrancando risos do público. Mas depois se convenceram que era a direita que havia triunfado e que era momento de dar no pé. Mesmo porque havia rumores de que a filmagem era mera fachada para a implantação de uma guerrilha comunista no nordeste.

Foi uma tarde histórica para o Festival de Brasília.

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