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Diário de Brasília 2014. Branco Sai, Preto Fica

Luiz Zanin Oricchio

22 Setembro 2014 | 09h01

 
BRASÍLIA – Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, recebeu a maior ovação até agora do público do Festival de Brasília. Foram vários minutos de aplausos para este mix de documentário e ficção, enfocando um caso de violência policial ocorrido há 20 anos na Ceilândia, uma das cidades-satélite de Brasília. Esse último dado serve para relativizar o sucesso: Branco Sai, Preto Fica joga em casa. Tem o público a seu favor, enquanto os outros concorrentes dispõem apenas de si mesmos para se impor ao de modo geral exigente público do Festival de Brasília, composto em grande parte por universitários.

Mas o fato é que Branco Sai, Preto Fica tem qualidades – e não poucas. O caso de truculência policial aconteceu num baile no Quarentão, um ginásio da Ceilândia. Várias pessoas ficaram feridas, houve gente que ficou paraplégica, gente que perdeu a perna, etc. Eles são convocados para o filme, mas para desempenhar papeis ficcionais. Ou melhor, para interpretar a si mesmos. Isso porque Adirley transforma o fato em ficção científica, fazendo-o mote de uma distopia futurista, na qual o trânsito entre o Plano Piloto e as satélites é limitado por meio de passaportes. Existe neste longínquo 2073 uma fictícia Polícia do Bem-Estar Social, incumbida de manter a ordem em uma sociedade ferozmente separada em classes sociais. Alguém foi mandado ao passado para produzir provas contra o Estado brasileiro e sua indiferença pelos pobres, e assim por diante. “A sensação que os habitantes das satélites têm em relação ao Plano Piloto é a de um apartheid social”, diz Adirley. “Brasília, como núcleo do poder, tem esse aspecto fascista, segregacionista”.

A criação do longa é engenhosa. Com o recurso à ficção científica, Adirley desmonta o tom lamuriento da denúncia. Pelo contrário, projetando-a para o futuro, assume a atitude de confronto, outro aspecto a torná-lo simpático ao público jovem. Essa rebeldia assumida toma forma ficcional no planejamento de um atentado terrorista contra a elite do Plano Piloto. Essa espécie de “bomba”, que varreria Congresso, Palácio do Planalto e também as aprazíveis superquadras do Plano Piloto seria formada por restos tecnológicos descartados pela elite, e músicas como o funk, o rap e canções consideradas bregas pelos bem-nascidos. É como se a cultura da periferia formasse, em seu caldo de cultura, um explosivo detonador capaz de abalar a paz e o bom gosto da burguesia brasiliense (ou brasileira?) e o aparato estatal que a sustenta. Como metáfora, é poderosa. Como ideia política, um tanto juvenil, mas o filme é sério candidato aos troféus principais.

Já tendo ultrapassado mais da metade da sua mostra competitiva, o Festival de Brasília deste ano confirma sua vocação, digamos, experimentalista. Até agora, todos os longas-metragens apresentados apostam em formas alternativas de linguagem cinematográfica. A que mais radicaliza nessa vertente de proposta é Pingo D’Água, do paraibano Taciano Valério. Trabalha com uma proposta aparentemente informe, com ausência de estrutura e unidade formal. O que se veem na tela são esquetes, livremente improvisadas pelos atores a partir de um tema proposto. Quem mais participa das cenas é o ex-crítico, ex-ensaísta e ex-professor da USP, Jean-Claude Bernardet, que agora despende toda sua energia em sua carreira de ator.

Bem, há que relativizar também essa afirmação. Bernardet participa de filmes alternativos, que seus autores gostam de chamar “de risco”, e que não ensejam uma carreira profissional propriamente dita. Ele não vai se tornar ator da Globo, digamos. Outra, que nesses filmes, Bernardet, de modo geral, vive personagens que são ele próprio, de maneira literal ou transfigurada, nesse processo que muitos chamam de autoficção. Em Pingo d’Água ele é Jean Claude, mora no Edifício Copan e declara que desistiu de escrever sobre os filmes dos outros para trabalhar em seus próprios filmes. Exatamente como ele mesmo.

O debate em torno do filme concentrou-se na questão de se ele faz sentido ou não. O próprio Jean-Claude admitiu que o filme não faz sentido algum, embora ressalve que, para ele, isto é antes mérito que defeito. Já o diretor Taciano Valério pareceu incomodado com o questionamento. Outro envolvido no projeto, como o ator Walter Bahia, garantiu que “tudo o que fizemos, individual ou coletivamente, tem muito significado”. Cabe ao espectador decidir se esse debate tem, ele próprio, sentido ou não, mas o simples fato de ele estar sendo travado já diz alguma coisa sobre o projeto. De todos os concorrentes, em todo caso, foi o que menos conseguiu estabelecer empatia com o público. Durante a projeção, uma parte da plateia retirou-se, o que é a mais radical crítica que um filme pode enfrentar.

Entre os curtas-metragens concorrentes, nota-se uma tendência bem menos “experimental”que entre os longas. Se estes desejam fincar a bandeira do “cinema de invenção”, os curtas, de maneira geral, preferem aprofundar formas já testadas. É o caso do bonito Crônicas de uma Cidade Inventada, (DF), de Luíza Caetano, ou Sem Coração (PE), de Nara Normande e Tião. O mais surpreendente, entre eles, é Vento Virado (MG), de Leonardo Cata Preta, que dialoga com o universo excêntrico de David Lynch para expor a conturbada vida interior de um personagem. Nua por Dentro do Couro (MA), de Lucas Sá, aposta na linguagem trash e produz um filme incômodo, no mau sentido do termo. A única animação apresentada, Castillo y Armado (RS), de Pedro Harres, narra uma história interessante de um pescador que captura um estranho peixe. O filme esteva na Mostra Horizontes do recém-encerrado Festival de Cinema de Veneza.

 

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