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Diário de Brasília 2013 – Revelações de Sebastião Salgado

Luiz Zanin Oricchio

19 Setembro 2013 | 09h52

BRASÍLIA – Foi uma típica abertura do Festival de Brasília – alguns discursos e a apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, desta vez sob regência do maestro Cláudio Cohen e tendo como solista o violinista austríaco Benjamin Schmid, no Concerto para Violino e Orquestra, do compositor norte-americano Eric Wolfgang Korngold. Benjamin Schmid tocou num Stradivarius e concedeu um extra. Foi uma bonita cerimônia, seguida pela apresentação de Revelando Sebastião Salgado, da diretora Betse de Paula, carioca que residiu durante dez anos em Brasília e aqui começou a carreira de cineasta. O filme já havia sido exibido em concurso no Festival de Gramado.

Revisto, mostra com mais evidência suas limitações e qualidades. Entre as primeiras, talvez um didatismo sonoro e visual um tanto incômodos. Por exemplo, quando Salgado fala que fotografou o atentado ao presidente Ronald Reagan, ouvem-se tiros. Quando diz que foi preso em Serra Pelada, insinua-se o bling bling das algemas. E assim por diante. Para enfatizar os deslocamentos do fotógrafo usa-se um mapa-mundi, colorindo-se os países que visitou. São técnicas infantis e Betse diz que foram aprovadas nos testes de audiência pelos quais o filme passou. Vox populi…

Os méritos, porém, são muitos. Em especial quando se sabe que tudo foi feito em três dias de gravação na casa de Sebastião Salgado em Paris. E que Betse enfrentou a concorrência de outro filme que está sendo feito sobre o fotógrafo brasileiro por um gigante do cinema como Wim Wenders. Muitas das imagens pedidas por Betse foram negadas por que “são para o filme do Wim”, como dizia Salgado. E, com ele, existe pouca margem de argumentação. “Não é não, e acabou-se”, diz a diretora. Esse espírito autoritário, impediu, entre outras coisas, que houvesse depoimento de Lélia Salgado, sua colaboradora e esposa há mais de 50 anos.

O que sobra de tanta dificuldade é material muito bom. Avesso a entrevistas, Salgado parece bem à vontade falando de si. Articulado, relembra a vida de menino no interior de Minas (num distrito de Aymorés), a saída do Brasil, a impossibilidade de voltar por causa da ditadura, a carreira de economista interrompida quando decidiu se dedicar à sua paixão, a fotografia. Fala das fotografias obtidas no atentado a Reagan e de como seu conhecimento de economista lhe permite traçar longas narrativas históricas, como na série Trabalhadores e Êxodus, dois dos seus livros de maior sucesso.

Em Trabalhadores, por exemplo. Acompanha-se a fabricação de um navio, desde a fundição do aço que ira construí-lo, até seu lançamento no mar, quando ira ligar povos e civilizações através do comercio. Para, por fim , encerrar seu ciclo vital, quando será canibalizado e suas pecas usadas para outros fins. É todo um ciclo resumido a partir da vida útil de um navio.

Da mesma forma, fica-se sabendo algo do método de trabalho de Salgado, de sua admiração pelos mestres pintores flamengos e seu uso da luz. ” Acostumei-me, assim, a fotografar contra a luz”. Fala também sobre sua admiração por Cartier Bresson, o mestre do “instante decisivo” cá captura de uma grande foto. E também de suas passagens pelas grandes agências de fotografia do mundo, como a Sigma. Mostra ainda o método de trabalho do fotógrafo que, na época digital, continua ainda a imprimir os “contatos” em papel para escolher as melhores tomadas.

Apesar de suas limitações, Revelando Sebastião Salgado é mesmo bastante esclarecedor.