Diário de Brasília 2013 – As cinzas do vulcão e o homem redivivo
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Diário de Brasília 2013 – As cinzas do vulcão e o homem redivivo

Luiz Zanin Oricchio

24 Setembro 2013 | 18h02


Com Exilados do Vulcão, de Paula Gaitán, e A Arte do Renascimento, de Noilton Nunes, completa-se o quadro dos longas-metragens concorrentes aos troféus Candango, que serão distribuídos hoje à noite no Cine Brasília.

Com Exilados do Vulcão, Paula traz um filme muito sensorial, que aposta mais na força das imagens que na da palavra. É um filme longo, alusivo, bastante poroso, à maneira, digamos, dos últimos de Terrence Malick. Isso é apenas uma aproximação. Não quer dizer que a cineasta tenha se inspirado diretamente no diretor de A Árvore da Vida ou Amor Supremo. Paula, que foi mulher de Glauber Rocha (e com o qual teve os filhos Eryk e Ava, ambos ligados ao cinema), dialoga com as artes plásticas. E isso sim se percebe com clareza na estrutura do filme.

Há, no entanto, uma linha narrativa que se insinua. Um homem (Vincenzo Amato), em processo de perda de memória, se relaciona com várias e belas mulheres, interpretadas, entre outras por Clara Choveaux e Simone Spoladore. Ou se recorda de ter se relacionado com elas. Fragmentos de memória, portanto, obtidos a partir de um diário e de uma série de fotografias deixados pelo homem.

Exilados do Vulcão é livremente inspirado no romance Sobre a Neblina, de Christiane Tassis. Mas, é claro, o texto escrito é apenas ponto de partida, a ser “negado” no filme. A se deduzir pelo que se viu na tela, ela escreveria como Margueritte Duras ou Philippe Sollers. Mas, é claro, essa dissolução do enredo pode apenas ser efeito da transposição de uma linguagem a outra. É filme a ser revisto, muito simples, na aparência, muito sensorial e pleno de camadas de compreensão. E de sentimento.

A Arte de Renascimento é um filme-homenagem de Noilton Nunes a Silvio Tendler, diretor de documentários famosos como Jango e Os Anos JK. Tendler tem passado, nos últimos anos, por graves problemas de saúde. Chegou a ficar tetraplégico, foi dado como incurável, mas se operou e readquiriu os movimentos das mãos. Anda de cadeira de rodas e foi ovacionado no Cine Brasília.

O filme é composto de depoimentos contemporâneos de Silvio e trechos dos seus filmes. Traça um perfil que muita gente tachou de hagiográfico. Mas o próprio Silvio não vê qualquer problema nisso. “Qual o problema em ver o lado positivo de alguém, em especial de quem se encontra fragilizado como eu?” Egos à parte, o filme revela a coerência da trajetória de um homem de esquerda, sempre ao lado das boas causas. No passado, a luta contra a ditadura, no presente, a defesa dos índios, e campanhas por uma alimentação mais saudável. Foi emocionante vê-lo em forma, com a verve de sempre, e dezenas de projetos na cabeça. É um guerreiro.

Fim, portanto, de um festival que acaba sendo de bom nível nas suas duas mostras – a documental e a de ficção.

Meus favoritos: na ficção, Riocorrente, de Paulo Sacramento. Se o júri não lhe der o prêmio principal terá perdido uma chance excelente de destacar um filme que ainda vai dar muito o que falar. Entre os documentários, o de que mais gostei foi de O Mestre e o Divino, de Tiago Campos, sobre o relacionamento de um padre salesiano alemão com os índios xavantes. Criativo, cheio de bom humor e revelador.

Entre os curtas, o que mais me agradou foi O Canto da Lona, de Thiago Brandimarte Mendonça, sobre os circos de outrora, através de depoimentos criativos dos seus artistas. Uma beleza de filme.