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Diário de Brasília 2012 Otto, em nome do filho

Luiz Zanin Oricchio

22 de setembro de 2012 | 10h43

Conhecido como cineasta cabeça, o mineiro Cao Guimarães diz que seu filme Otto é muito simples: “Uma homenagem a minha mulher e meu filho”. A mulher, a uruguaia Florencia, ou Flor, estava no palco do Teatro Nacional na apresentação do filme. “O Otto ficou no hotel dormindo. Acho que não aguentou a emoção”, diz o diretor, rindo. Otto é um bebê de nove meses. E ainda vai levar algum tempo para se emocionar com o filme do pai.

O resto, a própria obra explica, na narração off do diretor. Cao estava em Montevidéu acompanhando a exibição de seu longa Andarilho, no Cine Casablanca. Além dele, havia uma única pessoa na plateia, uma mulher jovem. “Ela saiu exatamente na hora da melhor sequência do filme”, diz Cao. “Mas logo depois voltou: só tinha ido ao banheiro. Na saída, disse a ela que precisava assistir ao filme de novo, conversamos, fomos jantar juntos e tudo começou.”

De acordo com o diretor, foi muito rápido. Ficaram juntos e ela passou a viajar em companhia de Cao, em suas andanças pelo mundo exibindo sua obra (ele é cineasta e trabalha também com videoinstalações). Foram a Paris e lá ela se descobriu grávida. Em seguida, partiram para uma temporada em Istambul, onde Cao tinha exposição. Daí a presença das imagens dessas cidades no filme.

Obra que nasce sem querer, por assim dizer. “Eu não tinha ideia de que estava fazendo um filme. Ia filmando minha mulher, fascinado por esse processo da gravidez. Quer dizer, era um registro íntimo, pessoal, coisa de marido babão, mesmo”, brinca. “Mas ao voltar a Belo Horizonte, olhando o material, me dei conta da força das imagens e então o filme começou a nascer”.

O processo de edição foi o mais difícil. Colocar a música (sempre do grupo Grivo, que o acompanha em outros trabalhos), e dar a ele o formato que bateu na tela do Teatro Nacional e emocionou a plateia.

Otto é um filme não narrativo (como todos os outros do diretor). Não conta propriamente uma história, mas convida o espectador a imergir num mundo de sensações e ideias, cujo fundo filosófico ele é levado a entrever.

De um lado, temos a narração em off, bastante parcimoniosa, do próprio diretor. Por outro, as imagens cotidianas de uma mulher jovem, feliz e brincalhona, que segue com encanto as transformações em seu corpo. Por fim, a filmagem da natureza, do mar, das montanhas, dos rios, e também dos objetos mais banais, que ganham relevo e significado no olhar de Cao, compartilhado com o espectador. E o parto, registrado de modo poético.

Otto é um nome simbólico. Graficamente é composto por dois zeros e uma porta. É também um palíndromo – se escreve do mesmo nos dois sentidos.

O nome do filho constrói o filme, que começa e termina pelas mesmas cenas. Tudo é circular. O filho continua o pai. Tudo está em tudo, e esse é o sentido da nossa vida, como da nossa morte. “Como dizia Demócrito, o ser tem tanta realidade como o não-ser”, cita Cao Guimarães.

Otto é simples, profundo. E comovente.

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