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Diário de Brasília 2011: Um ar de déjà vu

Luiz Zanin Oricchio

26 de setembro de 2011 | 15h19

BRASÍLIA – Amigos, cá estou para mais um Festival de Brasília, que cubro quase sem interrupções desde 1991. O “quase” fica por conta da edição de 2000, que não pude reportar para o jornal porque havia participado da comissão de seleção dos filmes – naquele tempo ainda se levava a sério esse tipo de prurido ético. Mesmo assim, acompanhei como observador esse ano que teve em Bicho de Sete Cabeças seu grande vencedor.

Tudo isso para dizer que, modéstia à parte, sinto-me em boa e confortável situação para acompanhar e avaliar esse festival que foi fundado em 1965, no tempo da ditadura, por ninguém menos que Paulo Emilio Salles Gomes, então professor da UnB. O festival atravessou todas as fases do cinema brasileiro moderno, a partir do Cinema Novo, e também enfrentou todas as suas vicissitudes – que não foram poucas e nem tênues.

Premiou filmes antológicos como A Hora e Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos), Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla) e Guerra Conjugal (Joaquim Pedro de Andrade). Em compensação, no início dos anos 1990, por força do desmanche provocado pela dupla de zaga Collor-Ipojuca Pontes, teve de aceitar em sua competição títulos inomináveis, pois não havia outros disponíveis. Com filme ou sem filme, Brasília afirmou-se na defesa intransigente do cinema nacional, mesmo quando era terrível e disseminado o preconceito contra essa produção. Mais do que é hoje, se isso é possível imaginar.

Na época, havia poucos festivais. Hoje eles proliferam. Há um em cada canto e nasce outro a cada dia. O de Brasília, (mal) posicionado no fim do calendário, viu-se progressivamente espremido por festivais concorrentes – os principais sendo o de Paulínia, com sua boa curadoria e poder econômico, e a Première Brasil, do Festival do Rio, com seu charme e poder de atração sobre os cineastas e produtores. Brasília acabou ficando com as sobras.

Agora em sua 44ª edição, apresenta modificações. Mudou o governo do DF, e mudou todo o estafe: da assessoria de imprensa à coordenação do festival, tudo é novo. A primeira dessas modificações foi na data. Passa de novembro para 26 de setembro a 3 de outubro. Antecipa-se à Première do Rio.

A segunda alteração importante foi no critério de seleção de filmes. Brasília, até o ano passado, dava preferência aos longas-metragens inéditos; agora a exigência foi abolida. Só não podem concorrer longas-metragens que tenham sido premiados como melhor filme em outros festivais.
A última alteração deu-se no valor do prêmio em dinheiro a ser atribuído ao longa-metragem vencedor: subiu de R$ 80 mil para R$ 250 mil.

Essas mudanças fazem sentido?

É verdade que o mais antigo festival do País andava sem rumo havia alguns anos. Com dificuldade em encontrar longas-metragens inéditos para sua mostra competitiva, ultimamente vinha selecionando quase que só documentários e, no ano passado, optou por uma competição praticamente exclusiva de novos diretores. Perdia, assim, a abrangência no âmbito do cinema de autor que, por muitos anos, o colocou na posição de principal festival de cinema brasileiro.

Ora, o festival de cinema de Paulo Emílio e Jean-Claude Bernardet não tem porque imitar o de Tiradentes, o de Paulínia, ou o festival de documentários É Tudo Verdade, muito bons todos eles em seus segmentos e com suas características, diga-se.

Brasília tem idade e experiência para reivindicar identidade própria. Não tem por que estar a reboque dos outros. No entanto, o que muda com a flexibilização do critério de ineditismo? Três dos seis competidores da mostra principal já passaram por outros festivais. De novidades, mesmo, apenas Hoje, de Tata Amaral, Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, e O Homem que Não Dormia, de Edgard Navarro. Os outros, Meu País e Trabalhar Cansa, além do filme de abertura, Rock Brasília, foram exibidos no Festival de Paulínia, e As Hiper-Mulheres, em Gramado. Mesmo o longa de Navarro já teve sessão pública em Salvador.

Com essa opção, Brasília 2011 começa com inevitável ar de déjà vu, sabor de prato requentado. A maior parte dos filmes já foi vista e apreciada pela crítica nacional. E daí?, pode-se perguntar. Para o público do festival, eles continuam inéditos. Verdade. Mas um festival de ponta pode se contentar com repercussão apenas local?

Enfim, é apenas uma experiência, que se dobra ao lobby dos cineastas, interessados em exibir seus trabalhos no maior número possível de festivais, mas tira de Brasília sua característica de lançador de filmes e de tendências. É uma decisão que precisa ser acompanhada em seus efeitos, mas tem todo o jeito de ser um senhor tiro no pé.

Tinha de ser assim? Quebrar o ineditismo para conseguir mais filmes de alta qualidade? Não necessariamente. Com sua tradição, seu alto prêmio em dinheiro e a nova posição no calendário, Brasília tinha cacife para fazer uma mostra de inéditos de boa cepa.

E por que não o fez? Com a palavra a comissão de seleção, que, como se sabe nos bastidores, dispunha de ótimas alternativas inéditas para preencher as seis vagas da competição principal. Um conhecido realizador e crítico de cinema carioca colocou numa rede social a frase que define tudo: “A Première Brasil tem uma imensa dívida de gratidão para com a comissão de seleção dos filmes de Brasília”.

Disse tudo. Para quem quiser entender.

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