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Diário de Brasília 2011: As Hiper Mulheres

Luiz Zanin Oricchio

29 de setembro de 2011 | 16h40

No primeiro dia de competição, o público do Cine Brasília curtiu o documentário As Hiper Mulheres, que já havia sido exibido no Festival de Gramado. Riu muito em certos trechos da projeção e aplaudiu demoradamente no final. Em certo sentido, essa reação é uma surpresa, embora o filme tenha sido bem recebido também em Gramado.

Dirigido por Leonardo Sette, Carlos Fausto e Tukumã Kuikuro, Hiper Mulheres tem por tema um ritual de afirmação feminina nas tribos do Alto Xingu. Mas o filme não entrega seu propósito logo de cara. No início, se sabe apenas que se trata de um ritual de cânticos indígenas, que passa de geração em geração e tem de ser recuperado, justamente por uma índia que se encontra doente. Mais tarde, veremos que o ritual, de cantos belíssimos, se fundamenta na afirmação da sexualidade feminina. É um filme sobre a vida, memória e a transmissão problemática da tradição.

Filme, digamos assim, etnográfico, em geral tem dificuldade com o público, mas, neste caso, os diretores conseguiram dar uma dramaturgia interessante ao ritual mostrado. Do ponto de vista do público, o que conta a seu favor, além da beleza das imagens e da própria narrativa, é o conteúdo sexual embutido no tal ritual, o que o torna muito engraçado. As legendas também ajudam, traduzindo a linguagem indígena em termos coloquiais, o que contribui para aproximar a obra do público. Por fim, a edição é muito inteligente, dando uma dinâmica de ficção a um filme que teria aparência de documentário observacional, embora seja perceptível a encenação dos atores, representando seus próprios papeis. Aliás, Leonardo Sette ganhou o Kikito de montagem em Gramado.

A sexualidade é um tema um tanto proscrito nos filmes sobre índios. Talvez porque prevaleça a imagem inconsciente do bon sauvage, que não deveria ser “conspurcada” pela sexualidade. Na literatura é diferente. No romance Maíra, de Darcy Ribeiro, a sexualidade indígena, vista como tão natural, chama a atenção.

Também em Quarup, de Antonio Callado, há uma espécie de elogio à utopia sexual indígena. Mas, no cinema, esse aspecto é ocultado. As Hiper Mulheres nos devolve esse aspecto reprimido e o faz pelo ponto de vista feminino, o que o torna ainda melhor. Na primeira visão, o filme é impactante. Revisto, parece um tanto redundante em certas passagens.

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