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Diário de Brasília 2010: um festival em busca de rumo

Luiz Zanin Oricchio

02 de dezembro de 2010 | 08h28

O perfil de 2010 do Festival de Brasília não pode ser pensado sem se levar em conta as duas edições anteriores, ambas muito fracas. Sem grandes opções de filmes inéditos, ousados e de qualidade, Brasília havia se conformado em se transformar em festival quase exclusivo de documentários, ou incluir filmes de ficção de baixa representatividade estética. Encontrava-se num impasse.

Neste ano, mais uma vez, o elenco dos 28 longas-metragens apresentado à seleção não era exatamente um dream team, como confidenciou ao Estado um dos membros da comissão incumbida de escolher os concorrentes. Nem havia filmes de grandes diretores “autorais” em disponibilidade. Nomes de prestígio, como Carlos Reichenbach, Ruy Guerra, Eduardo Coutinho, Beto Brant, Marcelo Gomes, Karim Aïnouz, etc não estavam disponíveis. Não tinham filmes terminados. Ou não viam mais o festival do DF como o melhor lugar para lançá-los, dando preferência a outras praças.

Em falta deles, a sacada da organização foi fazer da carência uma virtude e inventar um festival de jovens como se fosse opção e não imposição das circunstâncias. Escolheu uma comissão de seleção afinada com a ideia e vendeu esse slogan à mídia, em geral permeável a tendências rápidas e classificações superficiais.

Desse modo, este festival ficou sendo o do “risco, da coragem e da ousadia”, as três palavras mais repetidas ao longo de todo o evento. Como se as pessoas – organizadores, jornalistas e concorrentes – ao pronunciá-las, se reassegurassem de que tudo aquilo de fato estava acontecendo no mundo real.

Saindo da terra da fantasia, o que se pode dizer é que, dos seis longas-metragens concorrentes, dois de fato se colocaram em patamar superior de realização e trouxeram o sopro de renovação a Brasília: o vencedor O Céu sobre os Ombros e o injustiçado Transeunte. Alegria, ainda que se destaque mais pelos problemas que pelos caminhos que abre, também apresentou aspectos interessantes. Não destoa tanto do conjunto, embora esteja abaixo dos dois primeiros.

Mas o que haveria de “arriscado”, por exemplo, em Amor? ou em Vigias, caretésimo documentário sobre vigilantes noturnos? Desconheço. Já Os Residentes seria renovador no final dos anos 50, meados dos 60, no máximo. Como inovar reciclando de maneira acrítica velhas fórmulas? Deixemos a Godard o que é de Godard.

O que se pode dizer é que, ao fazer sua opção, Brasília conseguiu pelo menos um triunfo: realizou uma edição melhor do que as de 2008 e 2009. Engana-se quem pensa que este seja um caminho definitivo. Se os diretores consagrados se reapresentarem no futuro, Brasília não irá lhes fechar a porta. Nesse caso, poderá talvez apresentar seleções mais mescladas entre iniciantes e experimentados. É dessa convivência, entre gerações e tendências, que costumam sair as coisas boas. Pensamento único é muito empobrecedor.

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