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Diário de Brasília 2010: A Alegria

Luiz Zanin Oricchio

26 de novembro de 2010 | 10h12

Na sua apresentação de A Alegria, no palco do Cine Brasília, o diretor Felipe Bragança disse que havia dúvidas quanto à seleção dos concorrentes deste ano, formada por jovens realizadores. “Não se trata de ter dúvidas, mas de festejar a coragem que algumas pessoas têm de fazer cinema”. Ao lado dele, estavam a outra diretora do filme, Marina Meliande, e o resto da equipe. Foi, portanto, sob esse signo do cinema jovem, que começou a mostra competitiva do 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Salto no escuro de um festival até agora acostumado a nomes consagrados e que, neste ano, verá rostos desconhecidos sucedendo-se no palco e nas imagens na tela.

O final da sessão foi menos grandiloquente que seu início. O filme foi aplaudido, mas não muito. Diante de uma plateia também ela majoritariamente jovem e universitária, A Alegria, com sua narrativa pouco convencional, enfrentou certa dificuldade de comunicação. O filme é o segundo de uma trilogia chamada Coração no Fogo, que a dupla pretente realizar – o primeiro é A Fuga da Mulher Gorila, que venceu a Mostra de Tiradentes de 2010.

Bragança & Meliande fazem um cinema interessante, pouco usual, que pode intrigar a plateia e coloca algumas questões aos críticos. Uma delas: até onde irá a influência precoce sobre o jovem cinema brasileiro de Apichatpong Weerasethakul, Palma de Ouro em Cannes com Tio Boome que Podia Ver Suas Vidas Passadas? De todo modo, se a forma faz lembrar o tailandês, a ambiência de A Alegria é bem carioca. Põe no centro da história uma adolescente, Luisa, (Tainá Medina), com sua crise de idade, em meio a outra crise, a da violência urbana, que ganha relevo com a atual onda de ataques no Rio de Janeiro.

Em A Alegria, vê-se um afrontamento entre a realidade e o mundo da fantasia, que é esboçado na própria forma oscilante do filme. De um lado, a crise da adolescência; de outro, esse elemento pessoal, colocado contra o pano de fundo (ou de frente?) da violência urbana carioca. Desse modo, o registro flutua e passa a depender tanto do que acontece lá fora quanto do mundo interior da garota Luisa, abandonada sozinha em sua casa e que passa a viver com um grupo de amigos.

A presença do pai (Marcio Vito) é esporádica e se expressa por conselhos ou frases lapidares endereçadas à filha. Não se sabe seu efeito sobre a confusão ambulante que é Luisa. O ambiente é de caos, a cidade tomada, e Luisa decide testar os limites de sua coragem. A alegria passa a ser uma tarefa. Embalada pelo óbvio 4º movimento da Sinfonia Coral de Beethoven, a Ode à Alegria. O filme de Bragança e Meliande, da mesma forma que No Meu Lugar, de Eduardo Valente, procura colocar a questão da violência carioca em outro patamar de elaboração, um nível, digamos, não-sociológico. Estão no caminho. Mas aonde ele conduz?

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