Diário da Mostra 2015 (2). É o Amor
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Diário da Mostra 2015 (2). É o Amor

Luiz Zanin Oricchio

26 Outubro 2015 | 09h26

amor

Paul Vecchiali é considerado um dos mais originais autores do cinema contemporâneo. Basta ver um dos seus filmes para comprovar essa afirmação. Em É o Amor, temos um casal, Odile e Jean. Odile recebe o marido em casa após o trabalho e dá início a uma discussão doméstica. Ele chega muito tarde, não dá atenção a ela, etc.

O interessante é que a cena é mostrada duas vezes. Numa, a câmera fica sobre o marido. Tudo se repete em seguida, com a câmera focada na mulher. Maneira, talvez, do diretor afirmar a diferença radical dos pontos de vista diferentes sobre o mesmo tema. Vemos de um jeito; o nosso interlocutor vê de outro e não existe maneira de reduzir essa distância de pontos de vista em nome de uma objetividade comum. A relação é subjetiva em sua essência.

De modo que Odile (Astride Adverbe), convicta de que é traída por Jean, resolve fazê-lo provar do próprio remédio. E sai à rua disposta a encontrar um amante. Esse enredo amoroso, quase clichê, recebe tratamento totalmente original. Odile encontra o que procura, mas não da maneira como planejara.

Vecchiali trata seu sujeito de forma poética e é criativo já a partir dos créditos, que parecem sair da tela em direção ao espectador sob a forma de trilhos de um trem imaginário. Entra-se no filme como numa viagem, ou sonho, e deixa-se levar por uma narrativa que tem tanto de poética como de musical.

É notável como Vecchiali deixa a música intrometer-se na trama e tornar-se um dos seus elementos, quase personagem. Já víramos isso em Noites Brancas no Píer, inspirado em Dostoievski, narrativa já filmada por Luchino Visconti (Noites Brancas). Vemos agora em É o Amor, em diversas situações. No baile à beira-mar, onde Odile conhece Daniel. E também no encontro entre Odile e sua mãe (Catherine Vincent), que relembra sua vida por meio de uma canção. É um momento deliciosamente sublime deste poema visual. E sonoro.