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Diário da Mostra 2015 (1). Primeiras dicas e apostas

Luiz Zanin Oricchio

25 Outubro 2015 | 01h26

Hoje, na correria entre um filme e outro, uma leitora (sim, elas existem) veio me cobrar: “E o blog? Está parado quando mais precisamos dele?”. Bem, meio constrangido, disse a ela que, nesse tempo de Mostra, vendo o máximo possível de filmes, escrevendo para o impresso e agora com as novas e grandes exigências do Portal, sobra pouco tempo para o pobre blog. Mas ela tem razão. Há que fazer um esforço e não deixar o blog – e os leitores – à míngua. Aí vai, então, a primeira remessa de dicas e apostas, tentando tirar o atraso. Mas, recomendo: não deixem de acompanhar a nossa cobertura na versão impressa do jornal, tanto no Caderno 2 como no Guia, e também no Portal, que tem ferramentas ótimas para orientação dos cinéfilos. Bons filmes a todos e a todas! E fôlego para aguentar a maratona. 

 

Cordeiro, Etiópia, direção de Yared Zeleke. Típico filme da Mostra, que você não vai ver em nenhum outro evento, mas que tem sido recomendado por cinéfilos. História do menino que vai morar com parentes e leva consigo o inseparável animal de estimação. Um dia o tio o avisa que irá sacrificar o cordeiro em nome da alimentação familiar.

Aconteceu Naquela Noite, EUA, direção de Frank Capra. Destaque no núcleo histórico do festival, essa fábula de Capra é encantadora. A filha de um milionário foge para encontrar o noivo em Nova York e, na viagem, conhece um jornalista que se propõe a ajudá-la, desde que ela lhe conceda uma entrevista exclusiva.

Cinema: Assunto Público, Alemanha, direção de Tatiana Brandrup. O documentário tem como figura central Naum Kleinan, ex-diretor do Musey Kino, a Cinemateca russa, grande estudioso de Eisenstein e outros cineastas. O longa mostra a trajetória de Kleiman, mesclando-a a filmes de sua preferência. Mas no fundo é uma denúncia: nos tempos da Rússia atuais, uma cinemateca como a comandada por Kleiman já não tem vez.

Aferim, Romênia, direção de Radu Jude. Outro filme que vem badalado por informações de festivais internacionais. Ganhou o Urso de Prata de direção no Festival de Berlim. No século 19, um policial atravessa o país em busca de um escravo cigano foragido.

Sob Nuvens Elétricas, Rússia, direção de Alexey German Jr. De visual impressionante, o filme mostra um país caótico no ano de 2017. Esta data não é escolhida por acaso. Neste ano completa-se o centenário da Revolução Russa e o filme é como o repositório da memória do país neste século decorrido.

Hoje é dia de conferir o húngaro Son of Saul, uma visão apocalíptica dos campos de extermínio nazistas, favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro, segundo especialistas. A opção mais leve é o brasileiro Família Dionti, que usa a linguagem fantástica para descrever o cotidiano de uma família em Minas.

Lo que Lleva El Rio, Venezuela, direção de Mario Crespo. Dauna é uma índia warao, que deseja ser professora e escritora. Mas, para isso, entra em conflito com seu marido. Drama que focaliza o choque de culturas e revela um cinema venezuelano revitalizado.

Bom Dia, Tristeza, EUA, direção de Otto Preminger. Faz parte do acervo do The Film Foundation, dirigido por Martin Scorsese. Um clássico de Preminger, baseado no livro de Françoise Sagan. Cecile é uma jovem mimada que tem dificuldades em se relacionar com a madrasta, uma mulher conservadora.

O Retorno, Islândia, direção de Björn Haraldsson. Um dos integrantes do Foco Nórdico do festival. Um escritor cinquentão de livros de autoajuda fica perturbado quando o filho chega em casa com a namorada nova.

Son of Saul, Hungria, direção de László Nemes. Uma das grandes atrações da Mostra, e tido como favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Son of Saul mostra a saga de um prisioneiro de campo de extermínio que julga ter encontrado o corpo do filho e luta para lhe dar um enterro decente. Poucas vezes o Holocausto foi pintado em tons tão dantescos num filme de ficção.

A Família Dionti, Brasil, direção de Alan Minas. Esse filme foi uma das boas surpresas do Festival de Brasília. História de uma família no interior de Minas, contada em tons fantásticos. O pai cria sozinho dois filhos porque a mulher derreteu de amor. Um dos meninos se apaixona pela garota de um circo e o pai teme por sua sorte. Leve, romântico, divertido.

 

As Mil e uma Noites, Portugal, direção de Miguel Gomes. Dia de começar a conferir a grande (em todos os sentidos) trilogia de Miguel Gomes sobre a crise econômica em Portugal. Para mostrar a situação do seu país, ele usa a estrutura dos velhos contos árabes que celebrizaram Sherazade, a contadora de histórias.

Rashomon. Japão, 1950. Um dos clássicos de Akira Kurosawa, em cópia restaurada pela The Film Foundation, talvez seja um dos filmes mais influentes de sua época. Mostra um crime de estupro sob a visão de diversas testemunhas. Não existem certezas, existem versões, segundo esta obra complexa e filmada por um gênio do cinema.

O Apóstata, Espanha, direção de Federico Veiroj. Um rapaz resolve mudar radicalmente de vida e seu primeiro passo é renegar a fé católica. Mas ele descobre que o caminho para isso não é fácil. Em especial num país como a Espanha. O diretor uruguaio Veiroj é conhecido do cinéfilo brasileiro por seu filme A Vida Útil. Agora, faz uma bem sucedida incursão no cinema espanhol.

Fome, Brasil, de Cristiano Burlan. Visão original do cotidiano de um morador de rua, interpretado pelo ensaísta Jean-Claude Bernardet. Burlan filma em preto e branco e registra os aspectos poéticos e ásperos da metrópole

Dheepan – o Refúgio, França, direção de Jacques Audiard. Contestada por parte da crítica, esta produção levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Fala de um homem, uma mulher e uma garota que fingem ser uma família para escapar da guerra no Sri Lanka e emigrar para a França. Lá, eles serão instalados num conturbado subúrbio, dominado por traficantes.

É o Amor, França, direção de Paul Vecchiali. O enredo parece banal. Odile suspeita que o marido a esteja traindo e então resolve ir à forra, fazendo o mesmo com ele. No entanto, o cinema de Vecchiali nada tem de banal. É um dos autores mais originais da atualidade e costuma dar a seus temas um tratamento tão poético quanto inusitado.

Que Viva Eisenstein! – 10 Dias que Abalaram o México. Holanda, México, direção de Peter Greenaway. Filme que vem levantando polêmica entre os fãs do cineasta soviético Sergei Eisenstein. Greenaway narra um episódio da vida do diretor de Encouraçado Potemkim, quando ele foi a Guanajuato filmar Que Viva México!, mesclando atividades cinematográficas a casos de amor.

La Mujer de Barro, Chile, direção de Sergio Castro San Martin. História de Maria, que vive com a filha Tereza, e vê obrigada a aceitar um trabalho de boia-fria para sobreviver. Enfrenta as dificuldades com muita coragem e dignidade, sobrevivendo mesmo à brutalidade do ambiente. Grande interpretação da atriz Catalina Saavedra.

Estive em Lisboa e me Lembrei de Você. Portugal/Brasil, direção de José Barahona. Baseado em romance de Luis Ruffato, o filme conta a história de Sérgio, um rapaz de Cataguases que decide emigrar para Portugal. O filme é de um realismo sereno, mostra as dificuldades da vida de um estrangeiro, seus percalços e pequenas alegrias. Nunca busca o sensacionalismo ou a emoção fácil. Uma boa pedida.

Rocco e seus Irmãos, Itália, direção de Luchino Visconti. Uma joia da série histórica proposta pela Mostra. Visconti narra a saga da família Parondi, que vai do sul a Milão em busca de melhores condições de vida. A mãe e seus cinco filhos se defrontam com as dificuldades da cidade grande, suas tentações e frieza. Alain Delon e Renato Salvatori fazem os irmãos rivais no amor da prostituta Nádia, vivida por Annie Girardot. Um dos grandes momentos de Visconti e de todo o cinema italiano em sua época de ouro .

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