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Diário da Mostra 2014. Sinfonia da Necrópole

Luiz Zanin Oricchio

16 de outubro de 2014 | 09h14

Em Sinfonia da Necrópole, a diretora Juliana Rojas faz graça onde menos se espera – no interior de um cemitério. Mais ainda, transforma essa comédia necrológica em autêntico musical, daqueles de verdade, em que os atores cantam suas falas e podem dialogar em escalas musicais ascendentes e descendentes. Por sorte, não o tempo todo, diferentemente dos musicais de outrora.

Nessa comédia, o personagem principal é Deodato (Eduardo Gomes), que arrumou emprego de coveiro, mas morre de medo de cadáveres. Ele só se anima quando chega uma nova gerente ao cemitério, disposta a repaginá-lo, colocando-o no patamar dos grandes negócios graças a técnicas gerenciais contemporâneas.

Nesse ponto, notamos que a comédia não se esgota em si mesma. Ora, comédias são feitas para rir, e esta cumpre com seu dever principal. Mas são melhores ainda quando, após o riso, sente-se que contém embutida uma sutil crítica ao chamado status quo. Grandes comédias desempenham essa função, da antiguidade aos dias de hoje. Daí a frase latina “ridendo castigat mores”, atribuída a diversos autores, que significa simplesmente que o riso castiga (ou corrige) os costumes.

Há quem diga mesmo que o riso contém uma acidez dissolvente que a denúncia séria não possui. Deixando a polêmica para os doutos, vemos que tudo, em Sinfonia da Necrópole, é disposto para desconstruir alguns tabus. O primeiro deles, naturalmente, a própria morte, tratada com temor reverencial, mas aqui desmistificada como dado natural da nossa condição. O coveiro medroso é apenas um desses pontos estranhos. O outro, o consciencioso administrador do campo santo, que intui estar perdendo o pé da modernidade e por isso chama alguém capaz de ajudá-lo na tarefa de transformar o cemitério à moda antiga em exemplo de modernidade. Leia-se: em empreendimento lucrativo.

Com essa função entra em cena a espevitada Jaqueline (Luciana Paes), uma funcionária do Serviço Funerário disposta a fazer carreira. E, como tal, promove uma verdadeira repaginação do cemitério, com a cumplicidade de Deodato que, claro, tem outras razões, além das profissionais, para procurar a companhia da moça. O toque sutil da diretora é fazer da remodelagem do cemitério uma espécie de metáfora das reformas urbanas higienistas e elitistas que presidem as nossas metrópoles. A especulação manda e mortos “mais antigos” são desalojados para dar lugar aos novos, que podem pagar mais pelo espaço a ser ocupado. A lógica dos vivos (aliás, dos muito vivos) estende-se aos mortos, como não? Afinal, a morte é um negócio como outro qualquer e é preciso fazê-la render, administrando-a como se deve.

Com este, que é seu primeiro longa-metragem solo, Juliana reafirma a vocação já mostrada em Trabalhar Cansa, dueto com Marco Dutra, seu parceiro na produtora Filmes do Caixote. O diálogo com os gêneros (horror e fantástico, mas também o musical) não se esgota em mera curtição inconsequente, mas serve à reflexão social embutida na trama. Enfim, Sinfonia da Necrópole é um filme divertido, mas bastante consciente do seu viés crítico.

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