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Diário da Mostra 2014. Retorno a Ítaca

Luiz Zanin Oricchio

27 de outubro de 2014 | 11h04

Palma de Ouro com Entre os Muros da Escola, o francês Laurent Cantet faz, com Retorno a Ítaca, um puro filme cubano, sem tirar nem pôr. Totalmente filmado em Havana, ou melhor, num terraço debruçado sobre a capital cubana, Ítaca fala dos eternos dilemas da ilha, e talvez o principal deles – permanecer no país e sofrer privações ou exilar-se e morrer de saudades pelo resto da vida.

Para imergir nesse espírito cubano, Cantet aliou-se ao grande escritor Leonardo Padura Fuentes (de O Homem que Amava os Cachorros, sobre a vida e assassinato de Liev Trotski). Leu um conto do cubano que descrevia uma situação crucial – um homem que havia se mudado para Madri volta após 16 de exílio e se reencontra e se confronta com velhos amigos – e, juntos, escreveram o roteiro do longa-metragem.

Contando com uma estrutura dramática bastante costurada, e com atores de primeira (entre eles Jorge Perrugorría, Pedro Julio Díaz Ferran, Fernando Echeverria, Isabel Santos), Cantet pode driblar qualquer monotonia ao resumir toda a ação a um terraço de prédio em Havana. É nele que os amigos se reúnem em torno de Amadeo, que viajou para o exterior e permaneceu fora por 16 anos, sem voltar uma única vez à ilha.

A comemoração é grande, mas, compreensivelmente, toma ares de confronto à medida que as horas passam e os amigos vão conversando. Por que a situação de quem ficou é bem precária. Todos passaram pelo chamado “período especial”, de grandes restrições, quando a União Soviética acabou e, com ela, o subsídio que permitia manter o nível de vida em Cuba. Todos sofreram, com exceção talvez, deste imigrante que vivia na Europa e agora volta e fala de sua existência nesses anos. Há um ressentimento generalizado contra Amadeo e que surge quando as doses de rum vão se sucedendo – ele teria abandonado a esposa doente para viajar para seu exílio dourado. E ela acabou morrendo.

Na verdade, o terraço transforma-se num microcosmo da sociedade cubana, que contém em si as diversas expectativas em relação ao país. Há os que ficaram e se ressentiram porque sofreram restrições ou tiveram suas vidas profissionais cortadas. Um deles é um idealista dos tempos da revolução, que ainda acredita no socialismo tropical de Fidel e no advento do homem novo de que falava Che Guevara. É visto, pelos outros, como um utopista amalucado. Há também os que se deram bem e surfaram nas dificuldades do regime e conseguiram lucrar. Esta ala é representada pelo personagem de Perrugorría que aparece para a festa bem vestido, trazendo uísque escocês, comidinhas e produtos de luxo. Obviamente, tem ligações com o tráfico de produtos no mercado negro, mas diz que faz isso “para sobreviver”. Existem os jovens, que chegam no meio da festa e representam as novas gerações. Filhos dos antigos militantes, eles nada têm a ver com ideais de um tempo passado. E, claro, há Amadeo, a consciência que vem de fora, acusado de abandonar a mulher doente, mas que tem um segredo a revelar a todos, o que só fará quando o sol começar a nascer sobre a noitada de reencontro.

Se Cantet é brilhante na direção de atores e na tensão obtida pelos diálogos, é também um cineasta ético e, portanto, respeitoso com seus personagens. Em momento algum procura disfarçar as agruras por que passou o povo cubano. Ao mesmo tempo que não demoniza quem se cansou e foi embora, não ridiculariza quem ficou e procurou construir a partir de escombros. Todo o drama de um povo, que passa por dificuldades, mas não perde a dignidade, está lá, nas entrelinhas desses diálogos cortantes e, por vezes, comoventes. Na Ítaca a que retorna esse Ulisses chamado Amadeo não existe uma Penélope esperando. Mas ainda assim, o filme o insinua, essa volta pode não ter sido em vão.

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