Diário da Mostra 2014. ‘O Segredo das Águas’ e o ciclo da vida
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Diário da Mostra 2014. ‘O Segredo das Águas’ e o ciclo da vida

Luiz Zanin Oricchio

19 de outubro de 2014 | 11h56

 

O Segredo das Águas, de Naomi Kawase já foi chamado de “cinema new age”. Maldade. O filme é uma preciosidade. E se tudo que fala no ciclo da vida, infância, maturidade, velhice e morte, relação com a natureza, sexualidade, busca da paz interior fosse descartável como autoajuda de luxo, metade da filosofia ocidental, e a filosofia oriental inteira, teriam de ser atiradas na primeira lata do lixo da esquina. São inquietações permanentes da alma humana, nada menos, e ninguém tem culpa formada ao trazê-las de volta, ainda uma vez.

Não existem temas velhos no cinema. Existem temas trabalhados de forma batida, o que é outra história. Mas Naomi o faz de maneira inventiva e com uma plasticidade envolvente.

O que temos é uma ilha japonesa, no qual as tradições de culto à natureza são mantidas. Nelas, dois adolescentes descobrem a sexualidade e enfrentam problemas familiares. Um mistério mais profundo se insinua no dia em que aparece um cadáver na praia. As imagens são belíssimas. E há todo um relacionamento com o mar e com as forças da natureza (ventos e marés) que dão o estofo da história.

No todo, O Segredo das Águas é um filme contemplativo – no que o termo recobre de melhor. Quer dizer, busca levar o espectador a uma imersão nos tempos e sensações dos ilhéus, em especial dos adolescentes protagonistas. Mas não é um filme sem trama. Pelo contrário, os acontecimentos estão lá, narrados sob a forma de uma história de descoberta, da dor e prazer causados pelo crescimento. Há nele algo de muito oriental, além do idioma falado – a relação entre jovens e idosos. Se no mundo ocidental foi estabelecido um muro entre as gerações, em outras sociedades parece haver uma permeabilidade maior entre pessoas de diferentes idades.

Não que ela se dê sem conflito. Pelo contrário, o confronto entre o adolescente Kayto e sua mãe é quase brutal. E sua relação com o pai, que mora em Tóquio, é cheia de ambivalência. Tal qual poderia ocorrer entre o filho e os pais de um casamento desfeito em qualquer parte do mundo. Mas a presença de um personagem mais idoso, um velho pescador, dá uma dimensão nova à vida daqueles jovens que se iniciam na existência. Ela nada tem de caricatural ou piegas. É apenas a fala de alguém muito experimentado e que sabe ter a morte próxima de si. Reforça, por palavras, uma  presença espiritual que já se dera pelas imagens e pelo tempo deste filme belíssimo.

Mais dicas para hoje:

Domingo

Foxcatcher – uma História que Chocou o Mundo, de Bennet Miller (EUA). Baseada em história real, conta o relacionamento entre um milionário excêntrico e dois irmãos, campeões de luta olímpica.

Falstaff – o Toque da Meia-noite, de Orson Welles (Espanha/França). Vale a pena ver ou conhecer este filme menos badalado do autor de Cidadão Kane, em seu diálogo com as peças de Shakespeare.

Cássia, de Paulo Henrique Fontenelle (Brasil). Trabalhando com depoimentos e farto material de arquivo, Fontenelle traça o percurso da roqueira, que foi também um emblema do inconformismo e da contestação ao moralismo vigente.

Castanha, de David Pretto (Brasil). O diretor tem como personagem um artista da noite de Porto Alegre, que num procedimento de autoficção, interpreta a si mesmo. O processo é interessante e o personagem, ainda mais.

Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan (Turquia). Depois de Três Macacos e Era uma Vez na Anatolia, o diretor turco tornou-se uma celebridade do mundo do cinema. Aqui, um casal enclausurado pelo inverno rigoroso põe a nu seus conflitos. Olha, esse não dá para perder. Um filmaço.

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