Diário da Mostra 2013 – ‘Um Toque de Pecado’ e algumas dicas
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Diário da Mostra 2013 – ‘Um Toque de Pecado’ e algumas dicas

Luiz Zanin Oricchio

30 de outubro de 2013 | 00h05

É sempre problemático fazer afirmações definitivas numa mostra de dimensões sobre-humanas: ninguém pode se gabar de ter visto tudo. Mas, feita a ressalva, é possível que Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-ke, seja mesmo senão um dos melhores, provavelmente o mais complexo e completo filme desta Mostra. Ao lado, talvez, do romeno Child’s Pose (Amor Materno) e do taiwanês Cães Errantes.

Um Toque de Pecado traz histórias passadas em pequenas cidades da China. São, segundo o diretor, tiradas, ou inspiradas, na crônica policial. Histórias de sangue. Na primeira delas, a mais impressionante, um trabalhador revolta-se contra os desmandos dos dirigentes locais e transforma-se em serial killer. Noutro, um triângulo amoroso termina de maneira sangrenta. E assim por diante. Esse material, em outras mãos, poderia ser tratado de maneira banal. Jia Zhang-ke faz com que ele transcenda o episódico.

Em primeiro lugar, pela maneira elegante, e ao mesmo tempo intensa, com que filma. Tem um toque especial, característico e reconhecível. Uma assinatura. Além disso, é perfeitamente integrado, de maneira crítica, à realidade do seu país, desse grande mistério e contradição, chamado China. Um país tornado potência econômica mundial, praticante de um capitalismo selvagem aliado ao autoritarismo comunista. Duplicidade que gera não poucas contradições internas – todas minuciosamente detalhadas por Zhang-ke.

Desse pragmatismo decorre uma devoção ao dinheiro que não condiz muito com a imagem de país comunista. E, bem visto, Um Toque de Pecado revela-se, nada mais nada menos, que um filme sobre o dinheiro. O poder corrosivo do dinheiro, como dizia Marx, pensador que inspirou a fase comunista chinesa nos tempos de Mao Tsé-Tung. Hoje a realidade é outra, obviamente, e o acúmulo assimétrico de dinheiro vai produzindo os desastres habituais. Desse modo, o candidato a serial killer é um pobre trabalhador que frequentou a mesma escola de um bilionário, dono de um jatinho particular. A prostituição prospera em diversos night clubs destinados a visitantes estrangeiros, com os bolsos cheios de dólares – e está na origem de um caso de suicídio documentado por Jia Zhang-ke.

Enfim, Um Toque de Pecado é não apenas um filme crítico sobre a atual realidade chinesa. Seu tema profundo e universal é a coisificação contemporânea das relações humanas sob a ética dos negócios, do lucro, da posse. Numa das cenas mais tocantes, uma atendente da boate, confundida com garota de programa, recebe uma proposta de um cliente da casa. Diante da recusa, o homem tira um maço de dinheiro do bolso e, com ele, esbofeteia a moça. Como ela ousa recusar oferta tão boa?

A tragédia das relações humanas contemporâneas está todo neste filme, só em aparência retrato exclusivo da realidade chinesa.

Outras dicas: 

De Olhos Bem Fechados. Stanley Kubrick. Belo canto do cisne do diretor, que morreu antes de o filme ser lançado. Inspirado no livro Breve Romance de Sonho, de Arthur Schnitzler, conta a história de um casal desestabilizado quando a mulher (Nicole Kidman) confessa ao marido (Tom Cruise) que desejava outro homem. O tom irrealista (tanto do romance como do filme) confundiu alguns críticos.

O Militante. Manolo Nieto. Belo exemplar do minimalista cinema uruguaio. Rapaz recebe a notícia do pai e vai a Salto, no interior, cuidar dos negócios deixados. Inclusive uma fazenda que ele descobre estar enterrada em dívidas. Bela imersão na parte rural do país, com choque cultural entre a metrópole e a tradição “gaúcha” uruguaia.

Club Sandwich. Fernando Eimbcke. Também minimalista, esse exemplar atípico do mais exuberante cinema mexicano conta a história de um adolescente e sua mãe em férias num hotel. Ele conhece uma garota, mas a mãe não parece disposta a permitir a iniciação do filho. Muita sutileza e graça nas interpretações contidas.

Tom na Fazenda. Xavier Dolan. O filme competiu em Veneza e traz a história do rapaz que vai para uma fazenda onde morava seu amante. Encontra-se lá com a mãe e o irmão do rapaz morto. A questão sexual fica em suspenso entre os personagens, mas de forma latente acaba influenciando toda a trama. O estilo de Dolan é meio histérico, mas tem seus admiradores.

Riocorrente. Paulo Sacramento. Nova chance para ver esse belíssimo filme que concorreu em Brasília e traz a história de um triângulo amoroso entre uma garota fogosa, um jornalista e um ex-ladrão de carros. Poucas vezes São Paulo apareceu tão amorosamente desvairada como neste trabalho intenso.

O Foguete. Kim Mourdaunt. Filme indicado pela Austrália para concorrer ao Oscar, porém ambientado no Laos e falado na língua local. Garoto carrega o estigma de ter um irmão gêmeo, o que, na tradição local, é uma maldição. Tenta relacionar-me melhor com o pai e o faz através de um inusitado campeonato de foguetes artesanais, uma (perigosa) tradição do país. Filme com atores infantis, emotivo, porém nunca apelativo. Depois da sessão o diretor disse que uniu cenas documentais do festival de foguetes a outras ficcionais para construir seu relato. Belo filme.

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