Diário da Mostra 2013 – o indispensável ‘De Menor’ e outras dicas
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário da Mostra 2013 – o indispensável ‘De Menor’ e outras dicas

Luiz Zanin Oricchio

25 de outubro de 2013 | 11h12

De Menor, de Caru Alves de Souza, discute, como o nome sugere, a questão da delinquência juvenil. Problema premente de uma sociedade que não sabe o que fazer com seus menores infratores e se desgasta na ideologizada discussão em torno da maioridade penal.

Caru, em sua estreia no longa-metragem, sabe que o papel do cineasta não é o de oferecer certezas e nem mesmo impor um ponto de vista. O artista aponta problemas e impasses. Num tecido social mal ajambrado como o nosso, busca apontar seus pontos de falha e esgarçamento. Através da problematização das certezas do espectador, contribui para o enriquecimento do debate.

Esteticamente, De Menor é de um despojamento digno de nota. “Parece filme romeno”, comentou uma espectadora ao fim de uma sessão. De fato. Os atores são praticamente desconhecidos e dizem seus diálogos sem uma vogal de entonação “artística”. Aliás, em nenhum momento o registro de filmagem busca qualquer adorno ou embelezamento. A vida como ela é, seca, no recorte oferecido pelo ponto de vista da autora.

Na história, uma jovem advogada, Helena (Rita Batata), e seu irmão mais novo, Caio (Giovanni Gallo), moram sozinhos numa casa, em Santos. Perderam os pais e sobrevivem com certa dificuldade financeira. Ela exerce a função de defensora na Vara de Menores. Exatamente para a qual seu irmão será encaminhado após praticar alguns delitos. Temos, portanto, um conflito familiar, além de legal. A defensora é irmã do menor “apreendido”. Em debate, saber se ele deverá ser colocado em liberdade vigiada ou encaminhado à Fundação Casa.

Em De Menor, Caru busca enfrentar três vertentes– a institucional, através dos bastidores da justiça para menores; a social, pelas condições em que se flerta com o crime; a subjetiva, pelo sofrimento dos envolvidos, ou seja, o próprio garoto e sua família. O tom dominante é o de vontade de compreensão que não renuncia à compaixão. Ou seja, à simpatia pelo sofrimento alheio.

Que tudo isso seja feito sem discurso sociológico e sem melodramas já seria um mérito em si. Além dessas qualidades, também por rema contra o preconceito que faz da delinquência algo privativo dos pobres e dos negros. Tudo isso torna De Menor uma excelente estreia e já um dos filmes indispensáveis do ano.

Outras dicas

Cães Errantes. Tsai Ming Liang. Primeira exibição deste que deve ser uma das sensações de crítica da Mostra. Liang mostra as dificuldades de sobrevivência dos desvalidos em Taiwan, mas o faz com um estilo todo especial. Sua marca registrada são os longos planos estáticos, que convidam o espectador à reflexão – ou ao tédio, segundo a predisposição de cada um.

Paradjanov. Serge Avedikian, Olena Fetisova. Longa ficcional sobre a vida de Sergei Paradjanov, grande artista armênio/ucraniano perseguido no tempo da União Soviética. Paradjanov era artista plástico e cineasta, dono de um senso estético fora do comum. Foi perseguido por sua homossexualidade e mandado para a prisão.

Amor, Plástico e Barulho. Renata Pinheiro. Da cena da música brega do Recife, a diretora tira o drama pessoal e as aspirações de suas artistas. No Festival de Brasília, as atrizes Maeve Jenkings e Nash Laila foram premiadas.

Tatuagem. Hilton Lacerda. Filme que vem recolhendo prêmios por onde passa, a começar pelo Festival de Cinema de Gramado. Em sua estreia na direção, Hilton lança um olhar libertário sobre a cena alternativa do Recife. Livre nos diálogos, interpretações do elenco e no estilo de filmagem, é um convite à criatividade.

Habi, a Estrangeira. Ótimo primeiro longa da argentina Maria Florência Álvares, sobre a história de uma garota, em crise de identidade, que busca na comunidade muçulmana um sentimento de pertencimento. Maria Florência depurou o roteiro ao longo de mais de uma década para chegar a esse resultado despojado e intenso, em que nada parece sobrar ou faltar.

Informações e programação: www.mostra.org

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.