Diário da Mostra 2013 – O incrível ‘Child’s Pose’ e outras dicas para hoje
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Diário da Mostra 2013 – O incrível ‘Child’s Pose’ e outras dicas para hoje

Luiz Zanin Oricchio

28 de outubro de 2013 | 10h44

Dos filmes novos da Mostra (os clássicos, Kubrick, Resnais, Ozu, etc, não entram na conta) não há, até agora, nenhum mais impactante do que o romeno Child’s Pose, ou Amor Materno, de Calin Peter Netzer, vencedor do Urso de Ouro em Berlim.

Do que é feito esse filme? De um acontecimento e suas consequências. Filho de família rica atropela um menino de família pobre e o mata. O problema da família rica, da mãe em especial, é livrar a cara do rapaz, que nem é tão garoto assim. A mãe é Cornelia, mulher dominadora, ao lado do seu marido apagado. O filho, Barbu, tem nada menos de 34 anos, namora uma moça sem graça, que a mãe não aprova, e não parece nada propenso a assumir responsabilidades.

Cornelia toma à frente do caso. Se o negócio é livrar o filho da prisão, tem de se envolver no pesadelo burocrático da polícia. Não basta – precisa ainda tentar mudar o depoimento de uma testemunha (o motorista do carro que Barbu, acima da velocidade permitida, ultrapassou). E ainda buscar um acordo (sem que pareça ser um acordo) com a família do garoto de 14 anos que morreu no acidente.

Por um lado, a super atividade de Cornelia em prol do filho pode ser vista com exercício de amor materno que, como se sabe, não conhece limites. Por outro, a maneira como age denuncia de fato a maneira como os ricos veem os pobres e de como esse relacionamento assimétrico diante da lei se dá no interior da sociedade romena. Mas, apenas romena?, perguntaríamos.

Claro que não. Descontadas particularidades culturais, se poderia dizer que é assim em toda parte. Se existe uma tendência universal é a de resolver tudo com dinheiro, ou com jeitinhos legais variados. Não é privilégio romeno. Ou nosso.

Mas é claro que Child’s Pose vai muito além desse registro. Como notou um crítico, ele é uma espécie de O Som ao Redor romeno. Num aspecto particular – coloca sua lente próxima a uma família e, a partir dela, enxerga, de maneira ampliada, a estrutura mais arcaica da sociedade. No Brasil, com O Som ao Redor, é o modo patriarcal-escravocrata que sobrevive mesmo na reciclagem do capital rural em especulação imobiliária. Na Romênia, a coisificação capitalista que ressurge intacta mesmo após décadas de comunismo.

A maneira como essas sobrevivências são postas em cena é brilhante, num caso como no outro.

Outras dicas:

Era uma Vez em Tóquio. Yasujiro Ozu. Um dos clássicos absolutos do cinema mundial, na história dos velhos que reencontram os filhos e descobrem que já não fazem parte da sua vida atribulada. Vê-lo na tela grande é redescobrir aquilo que faz a essência do grande cinema: ser uma experiência marcante, que nos acompanha ao longo da vida e não apenas durante a duração de um saquinho de pipocas.

Ilo Ilo. Anthony Chen. Durante a crise asiática, uma filipina chega a Cingapura para trabalhar como empregada doméstica. O filme é feito de pequenos gestos e acontecimentos mínimos, no relacionamento entre a moça e seus patrões e seu filho. Os vínculos se estabelecem mas eles próprios dependem da crise e sua extensão. O lado social, aqui, não se impõe de maneira didática, mas é filtrada nas histórias mínimas desses personagens. Muita delicadeza e também profundidade.

São Silvestre. Lina Chamie. Num filme epifânico, a diretora lança um olhar fresco sobre a cidade, usando a corrida de São Silvestre, que acontece no último dia de cada ano. O desenho é plástico e musical, transformando a obra numa espécie de poema sinfônico da metrópole.

O Deserto dos Tártaros. Valerio Zurlini. Outro clássico a ser revisitado, a adaptação de Valerio Zurlini para o livro de Dino Buzzati. Crítico e metafísico, o filme fala da inutilidade do dispositivo militar e, quem sabe, da própria existência. Uma geração de soldados gasta a juventude em um forte para prevenir-se de uma possível invasão dos tártaros. Mas onde estão eles?

O Lobo Atrás da Porta. Fernando Coimbra. Filme que dividiu o prêmio principal da Première Brasil do Festival do Rio com De Menor, de Caru Alves de Souza. A história, inspirada no caso policial real da “fera da Penha” conta a história de um obsessivo envolvimento entre dois amantes (Millen Cortaz e Leandra Leal) que termina em crime. Seco, entrando logo no assunto e sem poupar a dureza das situações, o diretor consegue criar um clima de suspense muito grande para essa história de desfecho trágico.

Ana Arábia. Amos Gitai. Em busca da possibilidade de convivência entre árabes e judeus, uma repórter descobre uma vila, perto de Tel-aviv, onde essa coexistência acontece de modo natural. Filmado num único plano de 81 minutos, o longa representa a concretização da utopia política do seu diretor, um israelense de ideias liberais.

Horários e outras informações: www.mostra.org

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