Diário da Mostra 2013 – Mario Lago e novas dicas
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Diário da Mostra 2013 – Mario Lago e novas dicas

Luiz Zanin Oricchio

23 de outubro de 2013 | 10h28

Mário Lago, de Marco Abujamra e Markão Oliveira, mostra a amplitude da vida desse homem que hoje chamaríamos de multimídia. Mario Lago (1911-2002) foi compositor, ator, radialista, escritor e poeta, entre outras virtudes. Entre as quais se destacam a de ativista boêmio e de homem político. Ou melhor, da política, uma vez não era político profissional, mas, como militante comunista sabia perfeitamente que a política impregna e determina a vida dos homens, quer eles saibam ou não.

O filme é um percurso amoroso, que se vale da imensa massa de material gravado e imagens deixada por Mário nas inúmeras entrevistas que concedeu, mas também em sua participação em filmes e, em especial, em novelas e séries de TV como Hilda Furacão e Grande Sertão: Veredas. Mesmo seu trabalho no rádio é relembrado em algumas gravações do tempo em que fazia parte do elenco da Rádio Nacional.

Nascido em 1911, Mário vem lá de trás, tendo percorrido a história do século passado. Daí ter conhecido Noel Rosa, na vida boêmia da Lapa de então. Em depoimento engraçado, ele conta que não se dava muito com o compositor de Feitiço da Vila, mas não abre a razão. Pelo menos diretamente. Deixa nas entrelinhas, para quem conhece sua fama de homme à femmes. Quem se incumbe de esclarecer é Sérgio Cabral, pai, dizendo que o caso foi de saias mesmo. Os dois disputaram a mesma mulher e parece que Mário levou a melhor. Daí terem cortado relações, embora frequentassem os mesmos botequins da Lapa.

O próprio Mário, em suas entrevistas gravadas, fala dos seus grandes sucessos na música popular, marchinhas como Aurora, até hoje cantada nos bailes de carnaval, ou sambas como Saudades da Amélia (com Ataulfo Alves), Nada Além (com Custódio Mesquita) e muitas outras, tendo sido parceiro também de Roberto Riberti, Benedito Lacerda, Elton Medeiros e João Nogueira.

Indo de uma profissão a outra, de uma atividade à seguinte, o documentário capta bem o espírito de um certo Brasil, hoje desaparecido, no qual os não especialistas de talento se viravam muito bem. Era o caso de Mário Lago, que, jogando nas onze, foi construindo todo um currículo vencedor, motivado pelo pão de cada dia. Por exemplo, no tempo de rádio foi responsável por um programa de grande sucesso na época, Presídio de Mulheres, que manteve a liderança da emissora durante cinco anos seguidos. Eram histórias melodramáticas de mulheres encarceradas, saídas da imaginação de Mário.

Com o golpe militar de 1964, Mário é preso. Depois de solto, vê-se desempregado. E, como relembra, a mão estendida foi a de ninguém menos que Dercy Gonçalves, que o convida para entrar em seu espetáculo. Constrangido, Mário vacila: “Dercy, eu não sei se sou adequado para isso; como ator sempre fiz papéis de homens sérios…”. A grande comediante não lhe dá tempo para pensar: “Sabe, Mário, o fundamental mesmo é garantir o leite das crianças”.

Comunista, Mário foi preso sete vezes em sua vida. Nunca renegou sua crença, nem mesmo quando caiu o Muro de Berlim e a União Soviética acabou. Era homem de convicção e de ação.

Tanto assim que se impacientava com o cinema, com suas intermináveis repetições de cenas durante as filmagens. Mesmo assim, deixou sua imagem em filmes notáveis como O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, e Terra em Transe, de Glauber Rocha.

Se de alguém podemos dizer que teve uma grande vida, este foi Mário Lago – e não apenas por sua extensão temporal.

Mais dicas

Miss Violence. Alexandros Avranas. Uma história escabrosa, em que pai explora sexualmente a própria família. O mal-estar é enorme e o filme impressionou em Veneza, ganhando dois prêmios. No subtexto, pode ser interpretado como expressão da infindável crise grega. Berço da civilização ocidental, pátria do teatro e da filosofia, a Grécia desaba diante de uma prosaica crise financeira. O cinema local, de forma vigorosa, tem expressado essa condição.

Conversa com JH. Ernesto Rodrigues. JH do título é João Havelange, ex-presidente da CBF e da Fifa. O autor do filme é o mesmo da biografia (autorizada) do dirigente. No documentário, ele comenta as dificuldades que teve com o personagem. O filme ganha atualidade no momento em que o País discute a questão da censura às biografias não-autorizadas.

Lino Micchiché, Meu Pai, uma Visão de Mundo. Francesco Micciché. Documentário sobre o importante crítico de cinema italiano, dirigido pelo próprio filho do personagem, Francesco. Micciché escreveu sobre cinema mas também interveio na política cinematográfica. Criou o Festival de Cinema de Pesaro, grande divulgador dos filmes brasileiros no tempo do Cinema Novo. Era amigo dos filmes e dos cineastas, como Glauber Rocha, que aparece no documentário.

Alma Corsária. Carlos Reichenbach. Para lembrar um dos mais belos filmes do cineasta, morto ano passado. Vencedor do Festival de Brasília de 1994, Alma Corsária celebra a poesia na metrópole dura e é também uma grande ode à amizade. Vale a pena vê-lo, em especial no espaço público do Vão do Masp.

Educação Sentimental. Julio Bressane. Quem gosta de cinema feito de maneira original sempre espera com ansiedade um novo trabalho de Julio Bressane, cineasta de rara coerência, que vem inovando desde os anos 1960. Tomando o título do romance de Flaubert, Bressane conta a história de Áurea, uma professora solitária que começa uma relação com um rapaz que conhece por acaso.

A programação você encontra aqui: www.mostra.org

 

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