Diário da Mostra 2013 – Habi, estrangeira em dois mundos
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Diário da Mostra 2013 – Habi, estrangeira em dois mundos

Luiz Zanin Oricchio

20 de outubro de 2013 | 12h42

Para quem se queixa da falta de originalidade do cinema atual, eis aqui um filme que destoa do habitual. Em Habi, a Estrangeira, de María Florencia Álvarez, Analia (Martina Juncadella) é uma garota enviada para Buenos Aires pela mãe. Tem uma tarefa simples – entregar algumas peças de artesanato. Deve voltar em seguida para sua cidadezinha, onde assumirá um posto no salão de cabeleireiro da família.

Acontece que um endereço errado a leva para outra parte. Por acaso, ela entra em contato com uma comunidade muçulmana, encanta-se com ela, participa de um ritual de todo desconhecido e decide entrar num curso para estudar o Corão. A família não tem a menor ideia do que está se passando e por que a moça não volta para casa. Talvez nem ela saiba direito o que está fazendo.

Eis aí, uma ideia tão simples quanto inesperada para falar do contato entre culturas diferentes. E não apenas culturas, mais pessoas concretas. Adotando o nome de Habiba, ou Habi, a menina revela-se uma estudiosa dedicada da cultura muçulmana. Convive com as pessoas, mas nem sempre compreende seus hábitos. Esforça-se. E vai morar numa pensão onde tem por vizinha a mulher sensível e problemática vivida por Maria Luisa Mendonça. Sim, Habi, a Estrangeira é uma coprodução Brasil-Argentina e, portanto, abriga atores, no caso uma atriz brasileira em seu elenco. Maria Luisa interpreta em portunhol. Bom, por sinal.

Mas, enfim, Analia ou Habi, como quiserem, não representa apenas o fascínio pelo estranho. Ela mesma é, se quiserem, uma estranha para si mesma. Uma estrangeira, esteja onde estiver. Em sua primeira persona, de moça argentina e simples, ou portanto um véu, estudando o Corão e tentando se comportar como muçulmana legítima.

O filme de María Florência nos leva, ainda uma vez, a constatar a excelência dos roteiros no cinema argentino. Ninguém está dizendo que todo ele é assim, mas, pelo menos, a maior parte do que chega até nós, é de alta qualidade. Parecem extremamente simples, mas, vistos de perto, revelam todo o refinamento, todo o seu artesanato. Teríamos a lucrar estudando-os mais de perto. Refletem, talvez, o maior índice de leitura dos hermanos, sua escolaridade mais aprimorada.

O Brasil compensa de outras formas – é mais intuitivo, com frequência mais selvagem e criativo. O grau de contenção argentino às vezes pode conduzir ao academicismo, ao cinema “certinho demais”. Não é o caso aqui, em que o bom trabalho de texto vem acompanhado de uma direção bastante simples e depurada. E, claro, a atriz é um achado, com seu ar tanto decidido quanto desamparado. Contracenando com a personagem de Maria Luisa Mendonça, torna patente a diferença não apenas de caráter dos tipos ficcionais, mas das próprias intérpretes – intimista no caso da argentina, extrovertida, no da brasileira. Formam uma dupla interessante, no interior desse filme delicado e cheio de significados, apesar da aparência despretensiosa.

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