Diário da Mostra 2013 – A vivacidade de ‘Las Horas Muertas’ e outras dicas do dia
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Diário da Mostra 2013 – A vivacidade de ‘Las Horas Muertas’ e outras dicas do dia

Luiz Zanin Oricchio

29 de outubro de 2013 | 09h07

Locação única, bons atores, texto enxuto e direção segura – o mexicano Las Horas Muertas, de Aarón Fernández, prova que não é preciso orçamento enorme ou parafernália técnica para fazer bom cinema. Com pouco, se diz muito.

A história é e de um garoto de 17 anos convocado pelo tio para ajudá-lo a tomar conta de um motel de beira de estrada na praia de Veracruz, no México. Obviamente, o tio empurra o trabalho para o rapaz, pois o deixa lá sozinho e some de vista. A trabalheira toda fica por conta de Sebastián, a quem o tio faz recomendações básicas. A mais importante de todas – discrição máxima em relação aos clientes, já que o motel é usado para encontros sexuais rápidos.

E assim se passa o cotidiano de Sebastián, com sua amizade com o garoto que vende cocos em frente ao motel, a dificuldade em encontrar uma faxineira para ajudá-lo, a faina da limpeza dos quartos etc. E, sim, a observação curiosa, de alguém que está em plena formação sexual, sobre o que se passa por trás daquelas paredes. Um acontecimento o mobiliza, entre todos: conhecer a jovem corretora de imóveis Miranda, que lá se encontra regularmente com seu amante. Como o namorado de Miranda não é lá um modelo de atenção e pontualidade, ela acaba por fazer amizade com o rapaz encarregado do motel.

Essa é a historinha, no que ela possa ter de singeleza e mesmo de previsível desenvolvimento. O mais interessante não é o tema, mas a maneira como o diretor o apresenta ao espectador. Se as tramas são sempre as mesmas, a originalidade consiste na maneira pessoal de tratá-las. Por exemplo, Fernández faz da praia selvagem e algo desolada de Vera Cruz, uma cúmplice do enredo. Miranda tenta em vão vender algumas casas no local e enreda-se com seu amante desatento.  Fuma e olha o mar. Pensa. Sebastián também anda pela praia, briga e depois se alia ao pequeno vendedor de cocos. Também olha o mar. E ouve os ruídos do amor filtrados pelas paredes finas do motel. O desejo pulsa, mas de forma contida.

Quase tudo se passa no motel, com raras incursões fora dele, pela imobiliária onde trabalha Miranda ou o barzinho da cidade, onde ela procura diversão. É filme de iniciação amorosa, no qual se insinua mais do que mostra de maneira explícita. A intensidade visual com que se registra esse ato de passagem entre a mulher um pouquinho mais experiente e o jovem coloca o espectador dentro da cena. Não como voyeur, mas participante emocional de um rito de passagem e descoberta.

Outras dicas: 

Chaika. Miguel Ángel Jimenez. Com o caso de amor entre uma prostituta e um marinheiro, o filme tem como pano de fundo a história recente da União Soviética e a ex-república do Cazaquistão.

Manakamana. Stephanie Spray. Pacho Velez. Filme para determinados paladares muito especiais. Cinema de dispositivo: tudo se passa no interior de uma cabine de teleférico que transporta pessoas a uma montanha no Nepal. O teleférico sobe e desce. A câmera apenas observa os passageiros.

São Paulo Sociedade Anônima. Luís Sérgio Person. Um dos clássicos do cinema brasileiro, que vale a pena ser revisto. Person flagra o momento de instalação da indústria automobilística em São Paulo. A metrópole seduz as pessoas e, ao mesmo tempo, as engole. O maior trabalho no cinema do ator Walmor Chagas.

Dark Blood. George Sluizer. Filme de 1993, interrompido com a morte do protagonista, River Phoenix. Ele faz Boy, rapaz que mora um deserto contaminado por radiação. Toma como refém um casal cujo carro encrencara nas areias perto de sua casa e se apaixona pela mulher. Em voz off, o próprio diretor descreve as cenas que não chegaram a ser filmadas por causa da morte prematura do ator. Phoenix tinha 23 anos quando sucumbiu a uma overdose de drogas.

Lições de Harmonia. Emir Baigazin. Filme do Cazaquistão que tem sido elogiado pela crítica. Conta a história de Aslan, um garoto estudioso que mora num vilarejo exposto à violência.

 

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