Diário da Mostra 2013 – A utopia de Gitai e mais algumas dicas
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Diário da Mostra 2013 – A utopia de Gitai e mais algumas dicas

Luiz Zanin Oricchio

19 de outubro de 2013 | 11h17

Com Ana Arabia, atração de hoje da Mostra, Amos Gitai se defronta com sua obsessão: a convivência entre árabes e judeus no Oriente Médio. O filme é profundamente humano e um belo exercício de linguagem cinematográfica, feito num único plano-sequência.

Quer dizer, não existem cortes, e tudo o que se vê é em tempo real. Da chegada de uma jovem repórter a uma espécie de vila meio precária, situada entre Haifa e Tel-aviv, até sua partida, transcorrem 84 minutos. Tempo suficiente para que a moça ouça histórias de vários personagens, homens e mulheres, velhos e moços, árabes e judeus, que falam de suas vidas e do que fazem lá.

Não se trata de mero exercício estilístico. Em Veneza, onde o filme competiu ao Leão de Ouro, Gitai afirmou que a linguagem se impunha. Ou seja, que o conteúdo estava na forma. “A opção pelo plano-sequência único não foi um capricho de diretor. Eu simplesmente não queria interromper o fluxo narrativo entre os personagens porque essa é a essência do projeto”, conta.

Gitai é um dos raros cineastas contemporâneos a terem consciência da sua ferramenta de trabalho e de como escolhas estéticas implicam decisões de conteúdo. “O uso do plano sem cortes foi essencialmente político”, acredita.

Sobre sua utopia de uma convivência entre povos de culturas diferentes e de ódios muito arraigados, Gitai responde que a realidade no Oriente Médio é assim mesmo. “Você vai a um hospital e pode ser atendido por um médico palestino. A convivência existe na prática, mas é sabotada por uma intolerância gerada pela ideologia. Onde encontramos de forma melhor essa sabedoria sobre o viver junto? Entre as pessoas mais simples. Foi o que quis retratar no meu filme.”

Numa ficção que se parece muito a um documentário, Gitai não promove qualquer discurso sobre a convivência. Limita-se a registrá-la em ato. Entre os sete personagens principais, entrevistados pela repórter interpretada por Yuval Scharf, com as histórias mais variadas, de guerras, sofrimentos pessoais e políticos, emerge a ideia de que as pessoas aprendem a anular diferenças e fanatismos e fundar um meio comum como forma de convivência. Não são as ideologias que fornecem essa sabedoria, mas as próprias necessidades da vida a ensinam.

O título Ana Arabia se refere a uma mulher de origem judia que escapou da morte em Auschwitz, foi para a Palestina, converteu-se ao islamismo ao casar-se com um árabe. O exemplo transcultural e inter-religioso caiu como uma luva na equação difícil que Gitai procura resolver.

Mais algumas dicas

O Grande Golpe. Stanley Kubrick. O grande Kubrick num dos temas recorrentes do cinema noir americano – o do roubo frustrado. Mas poucas vezes esse assunto foi desenvolvido com igual maestria. O perfeccionismo a serviço da tensão e, claro, do prazer do espectador.

Depois da Chuva. Claudio Marques e Marília Hughes. Competiu, foi bem recebido e ganhou prêmios no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Ambientado na época das Diretas- Já, mostra a expectativa de jovens secundaristas de um colégio em Salvador a respeito da política, da música e da sexualidade. Tem clima e pulsão.

A Rotina tem seu Encanto. Yasujiro Ozu. Na seção clássicos imperdíveis da Mostra, mestre Ozu tenta demonstrar que o hábito e o costume nos relacionamentos ainda mantêm sua importância na vida social. Num Japão em mudança rápida, era um chamado à ordem. Ainda pode servir para nós e nossa vida em transe, sem tempo (ou disposição) para pensarmos no que realmente importa. A mensagem de Ozu atravessa o tempo. Aliás, é sobre o tempo. Confira.

A Fuller Life. Samantha Fuller. A filha do grande diretor norte-americano parte dos diários deixados pelo pai para reconstruir uma vida cheia de aventuras e criatividade. Fuller era um tipo, como eles dizem, bigger than life. Maior que a vida. Os trechos de diários são interpretados por atores e cineastas contemporâneos, numa homenagem ao antecessor ilustre.

Riocorrente. Paulo Sacramento. O grande filme do Festival de Brasília, que deixou de ser premiado por miopia do júri – o que não chega a ser novidade. Sacramento, em seu primeiro longa de ficção, mostra uma São Paulo em chamas (no sentido literal e no figurado), na qual se encena um triângulo amoroso entre uma mulher fogosa, um jornalista e um ex-ladrão de carros. O filme é brilhante.

2001 – uma Odisseia no Espaço. Stanley Kubrick. Andaram comparando o apenas bom Gravidade a esta obra-prima de Kubrick, que era um cineasta de ideias. Nada como conferir 2001 em tela grande e cópia restaurada para avaliar a dimensão da bobagem desta comparação. A serviço da indústria cultural, nossa época rebaixou demais o critério de avaliação. Sempre é bom rever um grande filme para restabelecer alguns valores e padrões.

Confira a programação em www.mostra.org

 

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