As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário da Mostra 2011: Imagens de coragem e dor

Luiz Zanin Oricchio

09 de novembro de 2011 | 21h16

Imagens extraordinárias da Guerra Civil Espanhola foram encontradas em 2007 em três caixas no México. Os negativos pertenciam a Robert Capa, Gerda Taro e David Seymour (“Chim”) e foram batidos durante o conflito que opôs republicanos e fascistas na Espanha entre 1936 e 1939. O conteúdo dessas caixas e a saga de sua viagem, desaparecimento e reencontro são os temas deste A Maleta Mexicana, de Trisha Ziff, documentarista de origem inglesa e que vive no México.

No filme, são apresentadas mais de 300 dessas fotos (de um total de 4.500 negativos) e contada a saga dos fotógrafos que, praticamente, reinventaram o fotojornalismo de guerra. Conforme se explica no filme, antes deles o registro fotográfico ocupava-se do antes e do depois das batalhas. Temerários, Capa e seus amigos arriscavam a pele para registrar cenas da ação – enquanto ela acontecia. Daí o frescor, a beleza e a força dessas imagens em preto e branco. Elas cheiram a pólvora – e também a compaixão humana diante do sofrimento.

Tal coragem cobrou seu preço. Nenhum dos três fotógrafos teve morte natural. Gerda morreu esmagada por um tanque, na Espanha. Capa pisou numa mina na Indochina e Seymour morreu de um tiro em Suez.

Eram aventureiros, no melhor sentido do termo. A alemã Gerda, o polonês Seymour e o checo Capa refugiaram-se do clima hostil aos judeus na Paris dos anos 30. Tornaram-se amigos e, depois, Capa casou-se com Gerda. Suas fotos ilustravam as revistas mais conhecidas da época como Regards, Ce Soir, Vu e a americana Life.

Saíram do seu conforto civilizado não apenas para registrar de maneira imparcial uma guerra, mas porque nutriam simpatia pela causa republicana, contra o fascismo. Empunhar uma máquina fotográfica, registrar o que viam e depois repassar o resultado do trabalho ao mundo era uma forma de luta. Achavam, por incrível que isso hoje pareça, que a fotografia podia mudar o mundo. E, talvez ajudasse mesmo a mudá-lo, tamanha era a força de divulgação dessas imagens.

A reconstrução da trajetória desses negativos, dados como perdidos, não é menos aventurosa que a presença dos fotógrafos no teatro de guerra. Com a derrota dos republicanos, as fotos saíram clandestinamente da Espanha, passaram por campos de refugiados na França e foram desembarcar no México. Nada mais natural, pois o México foi o país que mais acolheu os espanhóis derrotados por Franco. Junto com eles veio a valise, que durante muitos anos ficou repousando na casa de um general mexicano.

As fotos registram episódios importantes da Guerra Civil como as batalhas de Teruel e do Rio Segre, a defesa de Barcelona, além do êxodo através de Tarragona e Barcelona rumo à fronteira francesa. Há cenas mais domésticas, como a foto de Gerda, em Paris, escrevendo à máquina. A maior parte, no entanto, pertence ao campo de batalha.

Como documentário, A Maleta Mexicana é muito bem construído. Explora de maneira adequada a dramaticidade das imagens captadas por Capa, Gerda e Seymour. Articula o seu desaparecimento com a questão da memória, em especial a dos derrotados, recalcada mas que acaba por ressurgir.

E conta com a preciosa análise de um intelectual mexicano e seu diagnóstico preciso: o perigo, hoje, é essas fotos serem vistas apenas por seu valor estético, porém descontextualizadas da sua história política, de sofrimento e coragem.

(Caderno 2)

Tendências: