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Diário da Mostra 2011: Fora de Satã

Luiz Zanin Oricchio

25 de outubro de 2011 | 08h54

De onde vem a força incomum do cinema de Bruno Dumont? Talvez do seu estilo, planos longos, cheios de mistério, uma narrativa porosa que se entrega aos poucos, algo que parece aspirar à transcendência. É assim em A Humanidade, considerado seu melhor filme por parte da crítica, parece ser assim neste enigmático Fora de Satã.

Quem é esse personagem, que vive numa região estranha perto da Mancha (Boulogne sur Mer)? Apegado a uma garota da região, ele a protege de todas as maneiras, ao mesmo tempo em que a repudia quando ela o procura. É de uma violência extrema, que usa com a frieza de um enxadrista. E há o título,a  indicar algo demoníaco, mas que, ao mesmo tempo, não deixa de evocar um plano sagrado, um exorcismo.

Claro, porque logo se adivinha que a preocupação de Dumont com Fora de Satã é examinar a presença do mal no mundo. E, quem o faz, naturalmente também se dedica a esmiuçar a possibilidade do bem. Mal e bem, entrelaçados, figuras cambiantes, que existem por contraste, como no fulgurante conto de Machado de Assis, A Igreja do Diabo.

Esse personagem sem nome (David Dewaele) é ele próprio o demônio, ou simplesmente habita uma região atingida pelo maligno? Não existem respostas claras em Dumont. Seus filmes – e esse, em particular – se colocam de maneira distinta de um enigma que se encaminha rumo à solução. Aqui, a dúvida, a interrogação são essências, que não pedem solução ou esclarecimento. Os personagens vivem o mistério como algo natural.

Daí que a interferência da “ordem natural das coisas” (por exemplo, a polícia, no caso dos assassinatos e agressões) não contribua para desfazer a opacidade do mundo. Tudo permanece tão fora de esquadro quanto antes. Mesmo a pretensa cena de ressurreição aponta para um tanto de transcendência, mas pode também ser um engano como outro qualquer.

Há que se notar acima de tudo a qualidade da direção de Bruno Dumont. Ele escolhe uma paisagem desolada. Se as casas e fazendas são decadentes, as pessoas não ficam atrás. Adivinha-se (mas apenas isso) que aquele é um lugar sem futuro, no qual grassa a maledicência, a intolerância e a inveja. O mar é hostil, fotografado de maneira opressiva. Todo esse ambiente sem saída mergulha o espectador na angústia metafísica que parece ser a visão de mundo do diretor.

Seu personagem sem nome, o vagabundo que pode ser um deus ou um diabo, coloca em transe, por um momento, essa paisagem estagnada. Produz em nós uma inquietação que se poderia chamar filosófica. Ou religiosa, tanto faz.

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