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Diário da Mostra 2010: Um Dia a Menos

Luiz Zanin Oricchio

04 de novembro de 2010 | 09h07

O filme começa com a família reunida para as festas de fim de ano. Depois, todos vão embora cuidar da vida, em outra cidade, e o velho casal fica só. Um Dia a Menos, da mexicana Dariela Ludlow, mostra o cotidiano de Dom Eme e Dona Carmem, ambos já na casa dos 90 anos. “Casa”, aliás, bastante desconfortável, tomada por remédios, atravancada por achaques, sensação de vida vazia e perda de memória. Tudo isso está lá, no cotidiano do casal.

Por sorte, está também a ternura antiga, sobrevivência do que se supõe seja um grande caso de amor, um casamento de 62 anos. E estão também um resto de esperança e o humor ­- este, em particular, vindo da parte de Don Eme, fraquinho, exausto, mas sabendo cantar de cor a Internacional. O filme é lacunar, não se preocupa em apresentar o passado dos personagens. Mas, pelas conversas entre os dois, ficamos sabendo algumas coisas. Dom Eme deve ter sido um homem de esquerda. Não apenas porque sabe de trás para frente o hino comunista, como porque só liga a TV quando existe algum programa que “fale da revolução”. Qual revolução? A de 1917, na Rússia, ou mais provavelmente, a de 1910, no seu México? Com quem sonha Dom Eme, com Lenin ou Pancho Villa e Zapata?

Por essas lacunas, pela conversa entre os dois, a diretora constrói um filme belo e respeitoso sobre a terceira idade, esse eufemismo. É tema difícil. O cinema resiste a falar em velhos, pois vive da ilusão da eterna juventude. Quando o faz, é com pudor, atenuantes e pensamento politicamente correto, que tende a encobrir a realidade e jogar o incômodo para baixo do tapete. Em Um Dia a Menos a velhice é vista com todas as suas arestas. E também com grande senso de humanidade.

No final, preste atenção aos créditos, para comprovar que se trata de um quase documentário familiar.

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