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Diário da Mostra 2010: Turnê

Luiz Zanin Oricchio

22 de outubro de 2010 | 15h50

Nem todo bom ator dá bom diretor. Não é o caso de Mathieu Amalric, para muita gente o principal ator francês (veja-o, por exemplo, em A Questão Humana) e que tem se revelado diretor de mão firme e original. Mesmo quando dirige e atua ao mesmo tempo. Turnê não é seu primeiro filme, mas, mesmo se não conhecemos os outros, podemos ver que se trata de um diretor maduro que põe as coisas em ordem nessa verdadeira batalha que significa tirar um conjunto de imagens do nada, construí-las e colocá-las numa tela sob forma organizada. Antes de Turnê, Amalric dirigiu Mange ta Soupe (1997), Le Stade de Wimbledon (2001) e La Chose Publique (2003).
Na história de Turnê, ele próprio é o produtor de um show itinerante com garotas norte-americanas, que gira por cidades pequenas da França, com vistas a se apresentar na Meca do show biz do país, ou seja, na capital, Paris. Condenadas ao periférico, aos hotéis às vezes precários e palcos irrelevantes, as “meninas”, já meio entradas em anos, apresentam um espetáculo que muitas vezes flerta com o burlesco e, às vezes, francamente com o grotesco.

O curioso é saber, através de entrevistas, que o modelo inicial desse personagem confuso e angustiado chamado Joachim Zand é o produtor português Paulo Branco, hoje radicado na França e conhecido entre nós pelo quixotismo com que levantava fundos para diretores tão pouco comerciais como Manoel de Oliveira e João César Monteiro. Branco é um visionário, um homem de cinema, diferente deste Zand que procura público para um show de strip-tease bem pouco convencional, tanto pela aparência física das suas protagonistas quanto pela maneira como procedem sobre o palco.

Na estrutura do drama (pois é disso que se trata), Amalric primeiro apresenta suas personagens, com longas cenas mostrando em que consiste a atração que procura vender; depois entra no desgastante processo de viagem de cidade em cidade, em transporte incerto e com contratempos que espreitam a cada quilômetro da estrada. As garotas – Mimi Le Meaux, Kitten on the Keys, Dirty Martini, Evie Lovelle – são fantásticas. Não menos fabuloso é o produtor, com sua enrolação contínua, seu jeito caótico e beirando o irresponsável de ser. De expediente em expediente, Joachim abre uma frente de luta com seu elenco, que acaba por perceber que talvez tenha entrado numa roubada. Não há maldade, não há deliberação na maneira como tudo se processa. Apenas o caos, sentido como inevitável num certo modo de vida. Numa espécie de tique recorrente, Joachim pede, a cada lugar que chega, um pouco de silêncio que lhe é negado. Exige que desliguem a TV, ou diminuam o volume do aparelho de som, ou que um músico que se exibe pare de tocar – tudo lhe é negado. Como se esse pouco de paz que pede fosse um luxo extraordinário num mundo dominado pelo ruído e pelo excesso de excitação. Não deixa de ser uma metáfora de um determinado estado de coisas da assim chamada civilização.

Nem tudo é perfeito neste filme ao mesmo tempo simples e ambicioso: não é fácil tirar poesia do grotesco. Um gênio como Federico Fellini fez isso como ninguém. O mais extravagante dos seus personagens vibrava com uma humanidade tocante. Nem sempre é o caso em Amalric. Sua relação com o bizarro é mais tensa, mais áspera, lembrando às vezes à do diretor português João César Monteiro (de A Comédia de Deus) já morto. No entanto, o filme tem momentos de poesia e as sequências que passam por desfecho, em um hotel abandonado e solitário, beiram a epifania. No fundo, Turnê é um comentário lateral sobre o mal-estar no mundo.

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