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Diário da Mostra 2010: Rosas a Crédito

Luiz Zanin Oricchio

23 de outubro de 2010 | 12h21

Em princípio, Rosas a Crédito parece uma obra destoante da filmografia de Amos Gitai. Nada de política, nada que diga respeito ao conflito árabe-israelense, nada de críticas ao Estado de Israel, feitas com a moral de quem é judeu e não perdeu o senso das coisas nem da justiça. Desta vez, parece apenas uma história de relacionamentos pessoais, tiradas do romance pouco conhecido da escritora Elsa Triolet, a mulher mais importante na vida do poeta francês Louis Aragon, que a ela dedicou o livro Fou d’Elsa (Louco por Elsa).

Na história, Daniel (Grégoire Leprince-Ringuet) e Marjoline (Léa Seydoux) se casam na França após o término da Segunda Guerra Mundial. Aliás, o filme começa com material de arquivo, mensagens patrióticas de reconstrução da França após o longo, sangrento e desastroso conflito mundial de 1939 a 1945. A duração desse prólogo se justifica para nos colocar no sabor do tempo em que a história vai se passar. E a mentalidade vigente na Europa da reconstrução, na Europa do Plano Marshall, terá tudo a ver com o destino dos personagens. Entender esse destino também será compreender o caminho tomado pelo continente europeu com o término do conflito.

Daniel, junto com o pai, cria rosas (daí o título) numa fazenda próxima de Paris. Mas a mulher deseja morar na cidade. Não gosta de velharias (a frase que dirige ao marido é ótima: “Il me faut du nouveau”. Preciso do novo). E assim, o convence a morar num apartamento que justifica aquele famoso trocadilho brasileiro: “apertamento”, com a visão coberta pelo edifício de frente. Aliás, a cena em que o corretor de imóveis lista as vantagens do apartamento é antológica. Ter a intimidade devassada pelos vizinhos será “contemplar um espelho da sua própria felicidade”.

Enfim, essa França do pós-guerra nada terá mais a ver com o país de outros tempos. Entra no clima consumista e alienado que outra fase da civilização propõe. Os valores e produtos norte-americanos se impõem e tudo muda. Ao se perder, a Europa começa de fato seu ciclo de decadência, bem quando julgava crescer e deixar o passado para trás. Essa decadência com ares de modernidade é simbolizada pelo casal Daniel e Marjoline. Sobretudo por ela, linda, vazia. E perdida. Um caso de amor, pela lente de Amos Gitai, nunca deixa de ser também um comentário político e histórico.

CINE LIVRARIA CULTURA 1 23/10/2010 – 20:40 – Sessão: 156 (Sábado)
CINESESC 24/10/2010 – 17:20 – Sessão: 276 (Domingo)
CINEMA SABESP 25/10/2010 – 19:30 – Sessão: 344 (Segunda)
ESPAÇO UNIBANÇO POMPÉIA 1 26/10/2010 – 16:10 – Sessão: 477 (Terça)
CINEMATECA – SALA BNDES 29/10/2010 – 19:30 – Sessão: 744 (Sexta)

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