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Diário da Mostra 2010: Para entender a crise global

Luiz Zanin Oricchio

03 de novembro de 2010 | 11h54

O crítico da revista Positif, Michel Ciment (que faz parte do júri da Mostra) recomendou vivamente o documentário Trabalho Interno, de Charles Ferguson. Tem razão. É filme dos mais esclarecedores sobre a crise global de 2008. Mais ainda – por meio dele, o espectador terá uma visão de conjunto da estrutura do capitalismo mundial dos anos 1980 para cá.

De maneira significativa, Ferguson começa pela Islândia, uma espécie de paraíso europeu, com sua população pequena, alta segurança social, baixos índices de criminalidade, educação de ponta. Um sonho de desenvolvimento, ponto final de um processo civilizatório, levado à bancarrota pela “desregulamentação”, que levou o país à ruína pela ação dos especuladores. A Islândia é uma espécie de estudo de caso ideal para entender como o capitalismo financeiro se descolou da base econômica real e desenvolveu-se, de forma autônoma, numa espécie de cassino global. Ilha da fantasia virtual, cujos resultados desastrosos, infelizmente, retornam ao mundo real e o degradam.

Aconteceu na pequena Islândia, aconteceu nos países poderosos do mundo – Estados Unidos, União Europeia, Japão. Ninguém escapou da onda.

Para construir sua narrativa do caos econômico, Ferguson visita diversos países e faz muitas entrevistas. Há muito sentido naquilo que dizem as pessoas e também muito sentido nas que se negam a dizer qualquer coisa.

A conclusão de Ferguson nem de longe poderia ser classificada de esquerdista ou qualquer coisa do tipo. Pelo contrário; no subtexto vem embutido um elogio a capitalismo mais controlado, que se perdeu, segundo ele e muitos analistas, a partir da desregulamentação dos mercados. Alimentado por uma ambição sem medidas, o sistema foi levado à beira da falência. E só foi salvo por uma injeção sem precedentes de dinheiro governamental – isto é, do contribuinte.

Crítico impiedoso do governo Bush, nem por isso Ferguson poupa Obama. O que Trabalho Interno sugere é que nada mudou e pessoas envolvidas na crise foram reconduzidas a cargos importantes. A bomba relógio foi montada, mais uma vez. O cassino global tem lógica própria e independe de governos. Ou conta com a conivência deles.

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