Diário da Mostra 2010: Longa duração e ótima qualidade
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário da Mostra 2010: Longa duração e ótima qualidade

Luiz Zanin Oricchio

21 de outubro de 2010 | 13h06

Quem não quiser perder dois dos melhores filmes da Mostra terá de dispor de umas dez horas para assisti-los. Carlos, de Olivier Assayas, com cinco horas e meia, e Mistérios de Lisboa, de Raul Ruiz, com quatro horas e 26 minutos, valem cada segundo do tempo que empregam.

Carlos, a história de Ilich Ramírez Sánchez, em boa parte se confunde com a do final dramático do sangrento século 20. Nascido na Venezuela, Carlos teve formação marxista, foi revolucionário, apoiador da causa palestina e praticou atos terroristas em diferentes países. Sua ação mais espetacular foi o sequestro de onze ministros da Opep, numa reunião em Viena em 1975. No final da carreira, foi obrigado a procurar refúgio em vários países, pois era o terrorista mais procurado do mundo, tendo a CIA, o Mossad e o serviço secreto francês em seu encalço. Foi capturado em Cartum, no Sudão, seu último esconderijo. Está preso na França.

O filme começa em tom lisérgico. Há um prólogo, com o atentado que mata um ativista palestino em Paris. Logo em seguida, Carlos entra em cena, descendo de avião em Beirute, no Líbano. Circula pelas ruas de táxi, salta do carro, pega carona numa moto e é conduzido até o esconderijo do líder da Frente de Libertação da Palestina. É o início de sua carreira. Essa sequência toda não deve durar mais de cinco minutos. Câmera na mão, trilha sonora envolvente, ela dá o tom geral do filme. Absolutamente trepidante, que não autoriza uma única piscadela ao espectador.

Essa adrenalina vem, sim, das cenas de ação; mas se deve, em especial, à ambientação imposta à trama. O maior desafio dos filmes que tentam reconstituir períodos históricos é reproduzir com fidelidade o clima da época. Nesse sentido, Carlos é êxito completo. O espectador é sugado para o interior de um período de radicalismo político, mesclado a idealismos e teses extremadas, com a crença predominante em soluções pela via das armas. Há tempos em que a História se acelera e o de Carlos é um deles. Não por acaso, o desfecho da Guerra Fria, com a queda do Muro de Berlim, torna obsoleta sua presença no tabuleiro internacional.

Esses momentos delimitam o tríptico de que se compõem o filme: o início das atividades, seu auge com o sequestro dos ministros da Opep e o inevitável declínio. Contando com um ator excepcional, o também venezuelano Edgard Ramírez, Assayas busca traçar um retrato equidistante do personagem – não o endeusa e tampouco o demoniza. Vê o substrato de ideologia que o guia seus primeiros atos, e não o poupa quando a ação e a violência tornam-se fins em si mesmos.

É como se a violência se devorasse a si própria e Carlos fosse vítima da mesma ganância capitalista que julga combater. Assayas não esquece também a erotização dessa mesma violência, a vontade de potência que subjaz ao voluntarismo radical. Não o diz com palavras. Basta mostrar Carlos adorando o corpo no espelho. Ou mexendo em armas que têm valor sensual de símbolos fálicos. É filme físico, interpretado por um ator em forma atlética quando em ação, obeso quando inativo. Hormônios à flor da pele, ao lado de substrato político paradoxal. Como foi, exatamente, aquele fim de período histórico.

Já Mistérios de Lisboa atua em outro registro. Se o que fascina em Carlos é o torvelinho político em que nos mergulha, em Mistérios,dirigido por Raul Ruiz a partir do romance de Camilo Castelo Branco, o que encanta é o fluxo narrativo do folhetim sofisticado. Ambientado no século 19, nos traz a história de Pedro da Silva, da infância à idade madura, envolvido em tramas rocambolescas, que comportam a vida num orfanato, um sacerdote libertino e justiceiro, piratas, uma condessa vingativa, coincidências incríveis – mas que se tornam críveis pela arte de narrar de Ruiz. Mistérios de Lisboa é também uma minissérie para TV em seis capítulos. Os dois filmes sugerem que a síntese pode ser uma virtude mas que às vezes a longa duração é fundamental.

(Caderno 2, 21/10/10)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: