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Diário da Mostra 2010: Liliana Cavani, uma Mulher no Cinema

Luiz Zanin Oricchio

04 de novembro de 2010 | 10h09

Da diretora italiana Liliana Cavani pouco se conhece no Brasil. Esse pouco já é suficiente para considerá-la um dos nomes mais importantes de certa época do cinema italiano, como autora de O Porteiro da Noite (1974), um filme que fez época. Mas Liliana é muito mais do que a provocativa diretora que mostrava o romance entre um ex-oficial nazista (Dirk Bogarte) e sua vítima (Charlotte Rampling). Ela é também a autora do conhecido A Pele, baseado em Curzio Malaparte, e de diversos outros filmes que nunca por aqui chegaram ou tiveram passagem discreta pelas salas. Daí a importância do documentário Liliana Cavani, uma Mulher no Cinema, do sardo Peter Marcias.

É um filme muito simples, não se deve esperar dele mais do que pode dar. Basicamente, é uma longa entrevista concedida a Macias, ilustrada por cenas dos filmes da Liliana. Acontece que o conteúdo é tão bom, tão lúcido e intenso, que compensa a relativa pobreza visual do filme, agravada por uma projeção digital das mais precárias.

Na conversa, Liliana recua às origens de sua carreira, empregada na RAI, a empresa estatal italiana, onde dirigiu seus primeiros filmes. Fala da dificuldade de aceitação de uma mulher cineasta na machista sociedade italiana, reproduzida na estrutura hierárquica da empresa. E recorda dos primeiros filmes produzidos, uma História do 3º Reich (1962) e L’Età di Stalin (1964), ambos para a TV. Filmes de caráter mais didático do que, digamos, artístico, mas que mostram a preferência da diretora, ainda jovem, por temas políticos. O que não chega a ser surpresa na ultra politizada Itália dos anos 1960.

Dos trabalhos dessa época, fala com mais entusiasmo de La Donna della Resistenza (1965), sobre as mulheres engajadas na resistência aos nazistas durante a guerra. É um capítulo pouco conhecido da história italiana, na qual predomina, como aliás é caso geral, a presença masculina. Mulheres são citadas mais como vítimas do que participantes nos conflitos. Mas se o cinema de Liliana procura destacar o papel da mulher na sociedade e nos conflitos, volta-se em especial para perfis de grandes personagens. Fez de São Francisco de Assis um personagem no telefilme de 1966 e o retomou em 1989, com, pasme, Mickey Rourke no papel principal.

A entrevista com Rourke é um dos momentos mais engraçados do filme. “Eu fiquei estupefato quando aquela italiana veio me convidar para fazer um papel de santo!”, conta Rourke, cuja vida real, de fato, não pode ser considerada exemplo das virtudes associadas aos mártires da Igreja. Mas no cinema é outra coisa e desse modo Rourke pôde interpretar um Francisco convincente.

Liliana Cavani ainda pintou para o cinema os retratos de Galileu, Einstein e Nietzsche. “São personagens sobre os quais pensamos saber tudo e na verdade não sabemos nada”, diz a cineasta. Pura verdade. Em particular no caso de Einstein, que entra na cultura popular pela porta de suas fotos mais famosas e de um vago conceito de relatividade, mas do qual pouco se sabe, de fato. Em particular da revolução que provocou na concepção que temos do universo. “Foi também o primeiro ativista pacifista”, acrescenta.

Da conversa que Liliana Cavani teve com Marcias, sobra uma certeza, nada relativa, ao espectador – a obra de diretora tão inteligente merecia ser mais bem conhecida entre nós.

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