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Diário da Mostra 2010: José e Pilar

Luiz Zanin Oricchio

30 de outubro de 2010 | 09h01

José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, é desses raros filmes que descortinam uma intimidade sem serem invasivos. É, de fato, com delicadeza que o diretor acompanha longamente o cotidiano de um casal famoso, formado pelo escritor José Saramago e a jornalista Pilar del Rio. O cineasta acompanha o casal em sua casa em Lanzarote e em suas viagens ao exterior, inclusive ao Brasil. Segue de perto a criação do último romance do Prêmio Nobel português, A Viagem do Elefante e os deslocamentos do escritor na promoção do livro, com passagem inclusive pelo Brasil.

Aliás, os pontos de contato de Saramago com o Brasil são bem destacados – de sua amizade com Sebastião Salgado e Chico Buarque, à colaboração com Fernando Meirelles, que adaptou para a tela o romance Ensaio Sobre a Cegueira. Algumas das últimas imagens do filme o registram em sua passagem pelo Brasil, sempre em companhia de Pilar.

José e Pilar é um documentário tocante – e isso porque vai além do mero empilhamento de fatos e imagens. Claro, os fãs de Saramago ficarão contentes em conhecer a casa em que ele escrevia em sua ilha espanhola. Gostarão de acompanhá-lo de volta à sua cidadezinha natal, Azinhaga, onde chega coberto de glórias. Se divertirão ao ver que o austero escritor abre seu computador, não para começar um dos elaborados parágrafos de sua prosa, mas para disputar consigo mesmo um prosaico jogo de paciência. Mas o filme não tem o título de José e Pilar por acaso – ele fala de um casal. E, se Saramago é o mais famoso, Pilar não fica atrás como figura forte.

Muito mais jovem que o marido (Saramago a conheceu quando já tinha mais de 60 anos) Pilar faz muito mais do organizar a agenda do marido e facilitar-lhe a vida prática – para a qual, como muitos homens de arte, ele parecia não ter a menor vocação. Era ela quem lhe dava uma, vamos dizer assim, consistência existencial. Uma certa segurança de que não estava só no mundo, uma sensação muito comum entre escritores, talvez uma doença profissional desse trabalho ensimesmado. Essa reciprocidade e esse afeto transparecem nas imagens e nas falas dos personagens. Aparecem nos gestos, às vezes até mais do que nas palavras.

Muito da riqueza do filme se deve à sensibilidade de Miguel Gonçalves Mendes em captar esse subtexto de um relacionamento muito especial. Ao conhecer os dois, ele deve ter percebido muito bem que seria um equívoco centrar seu filme em Saramago e deixar Pilar em segundo plano, como pano de fundo da vida de um grande escritor. Como mulher forte, ela teria de estar ao lado do marido – mesmo porque professa um feminismo militante que não lhe permitiria jamais ocupar posição subalterna. Esse feminismo está na origem de uma das cenas mais engraçadas do filme. É quando o casal se disputa por causa da eleição norte-americana, quando Pilar defende ostensivamente a candidatura de Hillary Clinton, contra Obama, simplesmente porque não pode deixar de apoiar uma mulher numa disputa política. É muito revelador.