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Diário da Mostra 2010: Do Amor e Outros Demônios

Luiz Zanin Oricchio

26 de outubro de 2010 | 11h33

Não é muito fácil adaptar o realismo fantástico de Gabriel García Márquez ao cinema – todos sabem disso. Tende-se a cair no exagero ou, no extremo oposto, na neutralização do discurso fantasioso de Gabo, em nome do realismo. A estreante Hilda Hidalgo, da Costa Rico, surpreende ao encontrar a justa medida na versão para tela do romance Do Amor e Outros Demônios. Faz uma adaptação sóbria, mas bastante próxima ao espírito da obra do escritor colombiano.
Verdade que este romance talvez não proponha tantas dificuldades como outros do escritor – em especial a sua obra-prima, Cem Anos de Solidão, que não ainda não encontrou cineasta que o enfrente (dizem que Gabo o reservou, como herança, ao filho Diego García).

A história de De Amor e Outros Demônios é a de uma garota mordida por um cão, que é internada num convento sob suspeita de estar possuída pelo demônio. Não foi inventada pelo escritor. Faz parte da mitologia colombiana. Gabo a descobriu quando, ainda repórter, foi cobrir a demolição do antigo Convento de Santa Clara. Lá ouviu falar na lenda da menina de longos cabelos vermelhos que se apaixona pelo padre incumbido de submetê-la ao exorcismo. Como ficcionista, Gabo tomou o que lhe contaram como base para a história que constrói com sua imaginação. O resultado é uma meditação sobre o poder subversivo do desejo, e a opressão que, com todas as suas máscaras (ou como nenhuma delas), tenta mantê-lo reprimido.

Hilda Hidalgo trabalha com sobriedade sobre esse tema que é uma variante caribenha de O Padre e a Moça, o filme de Joaquim Pedro de Andrade construído a partir de um poema de Carlos Drummond de Andrade. Só que as cores são ainda mais soturnas porque, se o caso filmado por Joaquim se passava no conservador interior de Minas, o de Gabo, filmado por Hilda, leva a marca da inquisição. Da treva da intolerância levada à brutalidade física. A abordagem dos dois é similar – intimista, com closes dos rostos dos personagens, como se quisesse “ouvir” suas almas. Andamento lento, em diálogo talvez com Tarkovsky. Ou em consonância com a própria solenidade daquilo que trata. Um belo filme.