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Diário da Mostra 2010: Diário de uma Busca

Luiz Zanin Oricchio

27 de outubro de 2010 | 17h09

Não basta a um filme ser tocante – ele também precisa convencer o espectador de que a história lá contada poderia ser a sua. O comentário preliminar se aplica a Diário de Uma Busca, o belo documentário de Flávia Castro. O personagem é uma pessoa hoje esquecida, que viveu uma história enigmática passada na longa noite da ditadura brasileira. Esquecida pelos outros, não pela cineasta, já que o personagem em questão é ninguém menos que seu próprio pai.

Celso Afonso Gay de Castro era seu nome. Morreu em 1984 em Porto Alegre em circunstâncias pouco esclarecidas, baleado no interior do apartamento de um alemão que, pela investigação, verificou-se ser um ex-oficial nazista. Tudo levava a crer que se tratava de um assalto que, pelo aspecto curioso, foi tratado com destaque nas páginas policiais. Aparentemente, se tratava de um roubo que não deu certo e Celso e seu comparsa morreram na ação, não se sabe como. O laudo chegou à conclusão de que Celso havia se suicidado para não ser preso. Um legista acha a hipótese improvável.

Tudo seria curioso, mas ainda meio banal, não fosse o histórico do envolvido. Celso era um ex-militante político, que pegara em armas contra o regime militar, vivera na clandestinidade. Depois, como tantos outros militantes políticos, saíra do País, vivera muitos anos no exterior, e para cá retornara com a Anistia.

Inquietante. Em Diário de Uma Busca, Flávia Castro vai em busca da memória do pai. Talvez, se Celso tivesse morrido em ação política, o documentário não fosse tão original. Mas, como morreu em circunstâncias controversas e entrou não para a crônica política, mas policial, o filme ganha um contorno ainda mais inquietante. Como e por que morreu Celso? Uma das hipóteses diz que se não era fácil opor-se à ditadura militar, também não foi fácil ao militante readaptar-se ao País quando ela estava por terminar.

DIÁRIO DE UMA BUSCA
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