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Diário da Mostra 2010: Carta para Elia

Luiz Zanin Oricchio

01 de novembro de 2010 | 09h26

Carta para Elia é um tributo e mais uma peça memorialística do cinéfilo. No que diz e, em especial, nas belas imagens que coleta, Martin Scorsese presta sua homenagem a Elia Kazan, um dos seus diretores favoritos nos tempos de formação, em Little Italy, onde ele assistia, encantado, cenas de Sindicato de Ladrões e Vidas Amargas.

Sim, há identificação entre eles, e que passa como um fio – às vezes visível, outras mais oculto – ao longo de todo o filme: a condição comum de imigrante nos Estados Unidos. Martin, filho de sicilianos; Kazan, nascido em Istambul. Estrangeiros; fechados em guetos na primeira infância. Fascinados pela cultura norte-americana que se expressa, para eles, em especial através do cinema – ao lado do jazz, a grande arte americana.

Desse modo, é a vida de Kazan que Scorsese revive através das imagens, mas é também a sua própria que evoca. Uma memória que diz respeito aos dois cineastas, a uma época, mas se transfere para todos nós, como experiência compartilhada. Assim como foram as outras grandes reflexões de Scorsese sobre o cinema ­– Uma Viagem Pessoal Através do Cinema Americano (1995) e Mio Viaggio in Italia (2001), este sobre o cinema italiano em seus anos de formação. Carta a Elia entra como um capítulo adicional nesse percurso. Agora, de forma mais localizada, tratando de apenas um realizador.

Não um realizador qualquer. Ao mesmo tempo em que as imagens – extraordinariamente bem conservadas – de Marlon Brando em Sindicato de Ladrões são vistas na tela, a voz de Scorsese relembra que eram personagens que ele conhecia de perto. Gente sofrida, que tinha de lutar pelo pão a cada dia. Gente endurecida pela sobrevivência, mas que conservava no íntimo uma dignidade e um senso profundo de humanidade. Os personagens de Kazan eram iguais às pessoas de verdade com as quais Scorsese convivia em Little Italy.

Essa identificação não impede que Scorsese toque no ponto mais polêmico da biografia de Kazan, a mancha maior de sua carreira e sua trajetória – ter denunciado como comunistas alguns ex-companheiros de juventude na época do macarthismo. Kazan depôs duas vezes no Comitê de Atividades Anti-americanas do Senado. Na primeira, não apontou ninguém. Na segunda, dedurou como esquerdistas oito pessoas que haviam trabalhado com ele no teatro. Scorsese lembra que o pior foi o artigo que Kazan escreveu no New York Times, tentando justificar seu ato pelo horror ao totalitarismo comunista. Foi como uma admissão de culpa. Kazan ficou marcado para sempre por isso. Nem o Oscar pela carreira, entregue pelo próprio Scorsese o reabilitou por completo.

Ficam os filmes – e estes, Scorsese estudava, cena a cena, para entender porque o haviam emocionado tanto. Sindicato de Ladrões, Vidas Amargas, América, América, Um Bonde Chamado Desejo – obras-primas do cinema, filmes de Kazan que só crescem com o tempo. O homem é problemático; a obra é definitiva.

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