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Diário da Mostra 2010: Almas Silenciosas

Luiz Zanin Oricchio

28 de outubro de 2010 | 12h57

Almas Silenciosas (Ovsyanki) foi o preferido dos críticos no mais recente Festival de Veneza. No boletim que trazia, a cada dia, a cotação dos concorrentes, chegou ao final com a maior pontuação na avaliação de um pool de críticos locais e internacionais. Nada ganhou na premiação oficial, o que era previsível, levando-se em conta que o presidente do júri era Quentin Tarantino. No entanto, a participação no festival italiano serviu para firmar o russo Aleksei Fedorchenko como um dos cineastas mais inovadores e profundos da atualidade. Faz um cinema de poucas palavras e rigoroso apuro visual. Almas Silenciosas é quase uma pintura. Ou até mais que isso

Refere-se a um ritual fúnebre: um homem pede ajuda a um amigo para enterrar sua esposa morta segundo a tradição da cultura meria, uma antiga tribo que vivia à beira do Mar Negro. Essa cultura muito particular foi absorvida pela cultura dominante, a russa, já no século 17. No entanto, observam-se algumas permanências dela até hoje, em especial nesses rituais funerários.

Desse modo, Fedorchenko refaz, através de um caso particular – o desses dois amigos que enterram a mulher de um deles – o caso geral de uma cultura que sobrevive por frestas em meio a outra, amplamente dominante. Trata-se, também nesse caso, de um rito fúnebre, agora no plano simbólico. Ritos, como se sabe, são destinados à despedida de alguém que parte, mas também à preservação da sua presença na memória dos parentes e amigos. Enterram-se os mortos segundo determinado ritual, não tanto por eles, que já está além de qualquer contingência, mas pelos que ficam. .

O título original em russo é bastante sugestivo e deve ser explicado porque ninguém tem obrigação de saber o que é Ovsyanki. Trata-se do nome de um passarinho bastante comum naquela região. É uma ave colorida, mas muito banal, encontrada em qualquer parte e que não desperta a atenção por nenhum traço particular. Um equivalente, talvez, do nosso pardal. Tão comum que ninguém repara nele – por isso o título russo, concreto como só pode ser um substantivo só poder ter um equivalente nessas duas palavras, almas silenciosas, do título em português.

Seriam assim os personagens dessa história mínima – Miron, o diretor de uma modesta indústria de papel; seu amigo Aist, fotógrafo empregado na mesma empresa; e Tanya, a mulher morta de Miron, uma pintora desconhecida. Três personagens tão pequenos e obscuros que passam despercebidos em meio à multidão. Não se destacam em nada e nem de ninguém. O que os liga é apenas esse ritual subterrâneo de uma cultura tida como extinta, mas que neles, e através deles, sobrevive.

O filme é muito bonito, em tom de música de câmera e com imagens que dificilmente se esquecem depois de vistas. A câmera acompanha esse ritual com profusão de detalhes. Sente-se a necessidade de instalar o espectador na presença física de uma cultura para ele alheia e desconhecida. No entanto, ela não é apresentada em tom didático, mas apenas plástico. Trata-se de uma experiência e não de uma iniciação. Pede-se ao público que aceite mergulhar nessa realidade perante a qual ele é um estranho, mas da qual ele participa pelo elo comum da humanidade.

Almas Silenciosas poderia muito bem ser um documentário sobre essa cultura. Fedorchenko preferiu a via da ficção; mas, hoje, a distinção entre os dois gêneros é muito tênue. Existe, mas ninguém pode precisar onde termina um e inicia o outro.

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