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Diário da Itália (21) Rourke e a comédia infeliz

Luiz Zanin Oricchio

06 de setembro de 2008 | 07h25

The Wrestler, último filme em competição, dirigido por Darren Aronofski, foi uma boa surpresa, em especial quando se lembra do filme que ele apresentou aqui mesmo em Veneza no ano passado, o péssimo A Fonte da Vida. The Wrestler, (vamos traduzi-lo por O Lutador), sem ser nenhuma obra-prima, é bem melhor. Traz de volta à tela um Mickey Rourke bombado e envelhecido no papel do ídolo da luta-livre, que está pedindo uma aposentadoria, mas permanece no ringue para ganhar uns trocados a mais.

O diretor faz um bonito começo de filme, com a câmera acompanhando o lutador por trás, enquanto ele se encaminha para a arena. É um longo travelling, cheio de sentido. E que será repetido, em outra circunstância, mais adiante. Há muito sangue e paixão – e um belo trabalho de Rourke, que faz jus à força desse tipo de personagem: o velho lutador, o gladiador dos tempos modernos, sempre obrigado a mais uma luta para sobreviver. Claro, o tipo ideal de todos eles é Robert De Niro em Touro Indomável. Mas aí temos a obra-prima. Não passando nem longe dela, O Lutador convence pela sinceridade. Sua história é da queda com dignidade, enfrentando desde um romance frustrado com uma prostituta (Marisa Tomei) até o relacionamento difícil com uma filha (Evan Rachel Wood).

Na entrevista, Mickey Rourke disse que, antes de fazer o filme ele não tinha lá muito respeito pela luta livre. Afinal, ele lutou boxe e os boxeadores não levam lá muito em consideração esse tipo de combate que, mesmo sendo brutal, é em parte coreagrafado e ensaiado entre os supostos oponentes. Há um sempre do “bem”, outro do “mal”, os próprio juízes fazem parte do show e todos se divertem. Mesmo assim, sobram cortes, cicatrizes, dentes partidos e costelas quebradas. São como atores, vítimas da própria encenação. E, vendo a atividade mais por dentro, Rourke, segundo seu depoimento, passou a respeitá-lo. Isso porque Aronofski, habilmente, conecta a luta à sociedade do espetáculo. E faz a atração aparecer entre dois “atores do corpo”, manipuladores da fantasia alheia – o lutador e a prostituta. Não se descarta um prêmio de interpretação para Rourke.

No dia anterior à sessão de O Lutador, Veneza havia descido ao fundo do poço com a apresentação da triste comédia O Sêmen da Discórdia. A história: Verônica (Caterina Murino) é uma bela mulher, dona de boutique, casada com um vendedor de fertilizantes (Alessandro Gassman, filho do grande Vittorio). Resolvem ter um filho, esforçam-se de maneira burocrática, mas nada acontece. Seu teste de gravidez finalmente dá positivo, mas no mesmo dia em que o marido se descobre estéril. Crise matrimonial, pois a mulher não sabe de quem é o filho. Com isso, Corsicato se põe a discutir gravidez, paternidade, fidelidade, aborto, estupro, etc. Grandes temas que, faz questão de afirmar, gosta de conduzir com leveza. Com ligeireza, seria melhor dizer.

Da fotografia à exuberância feminina, fica perceptível o desejo, não de dialogar, mas de imitar Almodóvar, o que não se faz impunemente. Aliás, Corsicato adora citações. Logo no início do filme há um diálogo tirado de …E o Vento Levou. Em seguida, um carrinho de bebê é empurrado escada abaixo e, claro, trata-se de O Encouraçado Potemkim. Piscadinhas de olho para cinéfilos. Tudo gratuito, embora Corsicato diga que não alimenta qualquer preocupação autoral. “Tudo aquilo que trago é fruto da minha experiência no cinema, de coisas que vi e de que gosto”. Assim, ele vai atrás das cores de Almodóvar, das mulheres de Almodóvar, do exagero de Almodóvar, etc. Mas lhe falta a ternura do espanhol, o senso da ironia, o domínio do absurdo, etc. Falta-lhe o essencial. A alma. E, assim, o resultado é constrangedor.

O filme foi apresentado à noite, na enorme sala PalaLido e as reações dividiram-se entre aplausos e vaias. Sua presença na competição parece um grande equívoco. Mas talvez se explique em parte pela tentativa de “popularizar” a mostra, com a presença de obras muito comerciai e sem qualquer preocupação artística detectável, apesar dos belos discursos e perguntas eruditas de jornalistas que gostam de iludir a si mesmos – e aos seus leitores. Nada mais patético do que intelectualizar filmes completamente despretensiosos.

Com os problemas apresentados pelos filmes da mostra competitiva, os prognósticos tornaram-se ainda mais incertos. Quem leva o Leão de Ouro na cerimônia de hoje à noite? Difícil dizer mas se o júri resolver consertar o trabalho malfeito da comissão de seleção, terá poucos filmes com que se preocupar. Se nos deixarmos levar pela preferência dos críticos, teremos de colocar a animação Ponyo, de Hayao Miysaki, entre os favoritos. Mas devemos torcer para que seja apenas uma excentricidade causada por esse momento particularmente difícil para a inteligência européia. Hurt Locker, da americana Katryn Beglow, aparece também na ponta, mesmo que seja politicamente contestável quando visto de perto. “Um Rambo em Badgá”, como bem definiu um jornalista local. É até possível que o etíope Teza venha a vencer, o que não seria má escolha, dadas as particularidades desta edição do festival. E há mesmo quem jogue fichas no Jonathan Demme de Rachel Getting Married, filmado à maneira de um Cassavetes – mas sem qualquer traço da mesma inspiração. Com tantas dúvidas, pode até sobrar alguma coisa para os índios brasileiros de Birdwatchers de Marco Bechis, por que não?

Uma única aposta parece certa: dificilmente alguém se lembrará do filme vencedor daqui a alguns anos – para ser otimista.

Notas

Ética

Ermano Olmi tem sido um show à parte. Show de inteligência. Recebeu o Leão de Ouro pela carreira e foi convidado a refletir sobre o cinema de hoje e o que se fazia antes. Não quis estabelecer comparações para não parecer nostálgico. Mas lembrou de Roma Cidade Aberta e Alemanha Ano Zero, ambos de Roberto Rosselini, apenas para efeito didático. “Rossellini, De Sica e outros apresentavam diante de nós um tipo de realidade; a realidade em que nós deveríamos nos reconhecer”. É o cinema em sua dimensão ética.

Civilidade

Olmi disse que era função do cinema, ou pelo menos de um tipo de cinema, produzir “efeitos de civilidade”, que nem sempre se detectam no momento. Lembrou que, depois de passada a fase do neo-realismo, veio a nouvelle vague francesa, entre 1958 e 1959. “E ela também precisou de mais dez anos para produzir efeito, quando então, em 1968, os jovens se deram conta da importância da sua presença na sociedade.”

Personalidade

Em meio a tantas estrelinhas de brilho duvidoso, quem tem reluzido mesmo no Lido é a octogenária Agnès Varda, saudada por todos pelo documentário sobre sua vida, As Praias de Agnès. Tornada celebridade, a belga, primeira-dama da nouvelle vague despertou curiosidade sobre seu cabelo em duas tonalidades. Seria descuido ou efeito proposital? É de propósito, respondeu. Dá um trabalho danado para a cabeleireira.

Segurança no trabalho

Foram mostrados dois filmes sobre um grave acidente de trabalho na fábrica alemã Thyssen Krupp, instalada na Itália. Segund algumas acusações, o incêndio que aconteceu custou sete vidas porque houve um relaxamento nas normas de segurança no trabalho. Os filmes são A Fábrica dos Alemães, de Mimo Calopresti, e TyssenKrupp Blues, de Pietro Balla e Monica Repetto. Até mesmo o presidente da República, Giorgio Napolitano, enviou mensagem à Bienal de Veneza cumprimentado pela exibição dos filmes e conseqüente discussão sobre a segurança no trabalho.

Melhor curta

Já saiu o prêmio de melhor curta-metragem do festival e foi para o mexicano Tierra y Pan, de Carlos Armella, um colaborador do seu compatriota famoso, Alejandro González Iñárritu, diretor de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel.

Balanços imediatos

O cinema italiano, dado como em estado cataléptico nos últimos anos, deu uma boa despertada no Festival de Cannes. Por isso havia grande esperança na participação de quatro filmes locais na competição. O balanço já está sendo feito para avaliar se a safra é mesmo boa ou se Cannes foi um fogo de palha. A julgar pelo que se viu, o resultado é apenas mediano.

Pedra fundamental

Já foi lançada a pedra fundamental para o novo Palácio do Cinema, que, segundo os organizadores deverá resolver os problemas técnicos e de acomodação da atual sede do festival. Ninguém diz, mas o modelo é o Palais du Cinéma, de Cannes, que tem infra-estrutura exemplar e funciona o ano todo. A obra tem inauguração prevista para 2011, quando se comemoram os 150 anos da unificação italiana.

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