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Diário da Itália (14) Índios do Brasil

Luiz Zanin Oricchio

02 de setembro de 2008 | 07h27

VENEZA – Foi muito comovente a entrevista coletiva de Birdwatchers, longa-metragem do ítalo-argentino Marco Bechis rodado em Mato Grosso do Sul. Estiveram presentes, além do diretor e dos atores italianos, Chiara Caselli e Claudio Santamaría, cinco indígenas brasileiros, que fizeram parte do elenco e que são, na verdade, os protagonistas do projeto. Uma delas, em particular, chamou a atenção pela contundência. Falando de forma segura e olhando nos olhos dos interlocutores, a índia Eliane Juca da Silva conteve as lágrimas e disse: “Vocês estão aqui me vendo e eu estou vendo vocês. Quero dizer que nós, os indígenas, existimos e temos orgulho de ser o que somos. Não temos mais florestas para caçar nem rios para pescar. Hoje nós estamos usando a roupa de vocês, comendo a comida que vocês comem, mas queremos que saibam que temos a nossa própria cultura, a nossa língua, os nossos costumes. Tudo o que queremos é oportunidade para sobreviver”. Falou em ótimo português, e foi muito aplaudida.
Mas o filme de Marco Bechis não se destaca apenas por defender uma boa causa, ou por seus propósitos politicamente corretos. Sustenta-se como linguagem cinematográfica. Começa com uma cena de grande força. Vemos um barco de turistas contemplando um grupo de índios na margem. Índios com seus trajes típicos, de arco e flecha, pintados. O barco passa e os índios vão receber seu dinheiro. Estavam lá, caracterizados, como num palco, fazendo o papel… de índios para deleite de turistas. Depois que o barco passa, embolsam a grana e então vestem suas pobres roupas ocidentais, andrajos, e voltam à sua realidade de índios semi-aculturados, e sem lugar no mundo.
Birdwatchers busca um tom quase documental. Mostra a relação entre índios e fazendeiros da região – um deles, interpretado por Leonardo Medeiros. E também com exploradores, como Dimas (Matheus Nachtergaele), dono de uma venda e também agenciador de índios como bóias frias no corte da cana de açúcar. O conflito, como todos sabem, é pela posse da terra. O fazendeiro sustenta que sua família vive na região há três gerações. Para dar ênfase ao discurso, segura um punhado de terra, como se dela se apropriasse. A resposta do índio é genial. Ele também pega do chão um punhado de terra…e o come. Ele não está lá há algumas gerações. A terra não é dele; a terra é ele. Essa cena foi interpretada por Leo Medeiros e pelo cacique Ambrosio Vilhalva – também presente em Veneza.
O filme estréia hoje em 59 salas na Itália e chega ao circuito comercial brasileiro em dezembro, depois de passar pelas mostras do Rio e de São Paulo. Sem comparar as obras entre si: Birdwatcher junta-se a Brava Gente Brasileira, de Lúcia Murat, e Serras da Desordem, de Andréa Tonacci, como comentário recente – e pertinente – sobre o não-lugar do índio na sociedade brasileira. O filme é pungente, e dá o que pensar.
A competição apresentou ainda os concorrentes Vegas, Based on a True Story, de Amir Naderi (EUA), e Süt (Leite), de Semi Kaplanoglu (Turquia).
Vegas é um filme em suporte digital, que parte de uma boa idéia mas depois se perde na obviedade. Como diz o título, ambienta-se em Las Vegas e se pretende uma fábula sobre o jogo e, em última instância, sobre as ilusões do capitalismo. Uma família vive numa casa na periferia da cidade – marido, mulher, filho adolescente. O casal joga, ocasionalmente, nas máquinas de caça-níqueis que existem em toda a parte. Até que um dia alguém aparece tentando comprar a casa deles por um preço exorbitante. Conversa vai, conversa vem, ficam sabendo que existe um tesouro – uma valise com dinheiro, produto de roubo – enterrado no jardim. A partir daí, a família entra em clima obsessivo, tentando encontrar a fortuna. Daria um bom curta-metragem. Esticada, a parábola perde força, pela redundância.
Já o filme turco Leite agradou bastante à pequena platéia que ficou para vê-lo na última sessão de imprensa da noite. Começa também com uma cena impressionante: uma mulher pendurada de cabeça para baixo numa árvore vomita uma cobra. Através da seqüência, o espectador é introduzido a um universo rural da Turquia, que parece tanto brutal como místico. Pelo menos pelas imagens propostas pelo diretor. Nesse meio rústico, vive o rapaz Yussuf, que não consegue entrar na universidade, tem aspirações literárias e precisa dar um jeito de viabilizar a existência material.
Só que na região não há empregos. Ou, por outra, existe apenas uma carreira para quem é pobre e não pôde estudar – trabalhar nas minas da região. É o que Yussuf procura evitar, exercendo durante algum tempo a função de entregador de leite – daí o título. No entanto, essa descrição pode dar a impressão de um tom realista que o filme não tem. Através de longos planos, o diretor busca uma dimensão reflexiva e metafísica para a aventura interior do seu personagem. De feitura delicada, interiorizada, cheia de simbologia, Leite procura se deter mais no movimento interno do protagonista, em suas emoções e conflitos, do que no exterior. Belo filme.

Notas:
Onde foi parar?
A atriz Tainá Müller, que faz parte do elenco brasileiro de Plastic City, contou ao Estado que conversou com o presidente do júri, Wim Wenders. O cineasta alemão lhe perguntou o que acontecia com a personagem de Tainá, uma prostituta de uma boate da Liberdade, que “some” da trama. “Não tenho a mínima idéia”, respondeu a moça.
Cirurgia
Ciente dessa e de outras falhas em Plastic City, responsáveis pela má recepção em Veneza, o produtor Fabiano Gullane confidenciou ao Estado: “Vamos abrir o filme”, disse. Traduzindo o jargão cinematográfico: Plastic City volta para a mesa de edição para ser remontado. É esperar para ver se há cirurgia que dê jeito. Será preciso apelar a um Pitanguy da moviola.
Mistério
Os críticos acharam 35 Rhums, belíssimo trabalho da francesa Claire Denis, um dos melhores senão o melhor filme visto até agora em Veneza. Por que passou fora de competição e não disputa o Leão de Ouro? “Foi um acordo meu com a diretora”, responde, de maneira misteriosa, o diretor da mostra, Marco Müller. Se alguém entender, que explique.

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