Deves mudar de vida
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Deves mudar de vida

Luiz Zanin Oricchio

11 Janeiro 2018 | 20h35

 

Outro dia, vendo um filme sobre Lou Andreas-Salomé, ressurgiu para mim a figura de Rainer Maria Rilke.

Rilke, sabemos todos, foi apaixonado por Lou e viveu com ela um amor para lá de tempestuoso. Bem, mas este é assunto do filme, que comento em breve por aqui.

Lembrei de Rilke, como dizia, por uma longínqua conversa com um amigo. Era quando se tinha tempo para falar longas horas sobre literatura, sem nenhum objetivo em mente que não fosse o próprio prazer da coisa em si.

Estávamos em Paris e ali tínhamos todo o tempo do mundo, mesmo. Sobretudo, tínhamos “a vida toda pela frente”, como se costuma dizer aos jovens, que, não sei bem por quê, ficam irritados quando ouvem isso dos mais velhos.

Enfim, falávamos de Rilke, não sei por que motivo. E este amigo lembrou o poema  Torso Arcaico de Apolo, que termina com o verso: “Tens de mudar de vida”. Ou “Deves mudar tua vida”, segundo a tradução.  

Matutávamos sobre o poder da pedra antiga, a estátua incompleta, de convocar esse imperativo imposto de vez em quando a todos nós: mudar de vida. Começar de novo. Zerar. Passar a régua, como se diz. Apagar o que for possível e tomar novo caminho. Reinventar-se.

De vez em quando me vem a lembrança dessa conversa também antiga, ela própria. Vem como um banzo fora de época, e talvez também carente de sentido mais preciso. No frenesi do cotidiano, neste não-pensar compulsivo de que é feito nosso presente, volta o apelo longínquo do mármore evocado por Rilke: “Deves mudar tua vida”. Como um chamado eterno, imóvel, vindo da antiguidade profunda.

A essa sensação indefinida de beleza e melancolia talvez chamemos poesia.

 

Abaixo, quatro traduções do poema e o o original, para quem curte o idioma alemão:



Archaïscher Torso Apollos

Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt,
darin die Augenäpfel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt,

sich hilt and glänzt. Sonst könnte nicht der Bug
der Brust dich blenden, and im leisen Drehen
der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.

Sonst stünde dieser Stein entstellt and kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
and flimmerte nicht so wie Raubtierfelle;

und bräche nicht aus alien seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du musst dein Leben ändern.

(Rainer Maria Rilke)

Torso arcaico de Apolo

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

(Trad. Manuel Bandeira)



Torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça legendária
na qual as pupilas maturavam. Porém
seu torso ainda arde como uma luminária,
em que seu olhar, mais tênue, se detém,

fica e brilha. Senão o leve reflexo
da curva do seu peito não te cegaria,
nem o sorrir, no giro dos quadris, iria
correr para esse centro que portava o sexo.

Seria apenas uma pedra deformada
sob os ombros de diáfana derrocada
e como pelos de fera não brilharia

e nem teria toda sua forma rompida
como uma estrela: lugar não haveria
que não te veja. Precisas mudar tua vida.

(Trad. Karlos Rischbieter)



Torso arcaico de Apolo

Não sabemos como era a cabeça inaudita,
onde as pupilas amadureciam. Glabro
no entanto o torso aclara como um candelabro,
onde apenas mais tênue, o seu olhar nos fita

e brilha. Senão como poderia o plexo
do peito assim cegar-te, e iria, no impreciso
arquear de parte da cintura, um leve riso
correr para esse centro, onde existia o sexo?

Seria um simples bloco mutilado e falto
e de seus ombros nunca o translucente salto
reluziria assim como um lombo de fera

nem romperia as órbitas qual explodida
estrela: pois ali ponto nenhum se espera
que não te veja. Tens que mudar tua vida.

(Trad. Ivo Barroso)



Torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: Precisas mudar de vida.