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Devemos extinguir o Paulistão?

Luiz Zanin Oricchio

06 de abril de 2010 | 13h44

Não consigo desgostar do Campeonato Paulista, ao contrário de alguns colegas aos quais devo respeito. Não vou evocar a título de argumento as imagens da infância, quando o campeonato regional era de fato o que mais nos interessava. Nem vou falar dos jogos antológicos a que assisti ou dos quais ouvi falar e compõem hoje a melhor mitologia do nosso futebol. Sei que as coisas mudam e não me considero saudosista. Admito que os campeonatos regionais não têm mais o mesmo atrativo de antigamente, mas imagino que deixariam um grande vazio caso fossem extintos.
Penso nisso tudo quando mais um Paulistão vai chegando à sua fase decisiva e, por mais que me esforce, não consigo sentir desalento, como se tudo o que experimentamos até agora não tivesse valido a pena. Claro, não é possível dar uma de ingênuo e ignorar problemas como a baixa média de público ou o sofrível nível técnico da maior parte dos concorrentes. Em todo caso, se o público não vai ao estádio como desejaríamos, isso pode acontecer porque o nível dos jogos de fato não é bom, mas também porque ir a estádio virou uma epopeia digna de herói grego, ou porque ingressos estão muito caros, ou porque a imensa oferta de futebol na TV talvez já sacie amplamente a fome de bola da maior parte dos torcedores.

Durante o Campeonato Brasileiro não teremos tanto desnível entre times, mas a qualidade técnica também não nos arrancará suspiros de êxtase. Nem faltarão estádios vazios a empobrecer estatísticas. Os campeonatos regionais podem ser responsabilizados por muitas mazelas – a principal, congestionar o calendário –, mas não podem ser inculpados pela falta de público em certos jogos. Tirando o torcedor militante, aquele que de fato acompanha o seu time na saúde e na doença, a maior parte das pessoas que vai ao campo escolhe os jogos que deseja ver ao vivo – os clássicos, as partidas decisivas, etc.

A não ser que lhe seja prometido um espetáculo a que não está acostumado a ver todos os dias quando, nesse caso, o aficionado vence a inércia e decide enfrentar a corrida de obstáculos que o leva ao estádio. Dou um exemplo. Sei, por experiência própria, como é difícil tirar o torcedor santista de casa. Cansei de ver jogos na Vila com as arquibancadas vazias, mesmo levando-se em conta que é muito mais tranquilo ir ao Urbano Caldeira que ao Pacaembu ou ao Morumbi. Mas o comodismo fala mais alto. No entanto, testemunhei a Vila Belmiro cheinha para assistir a um jogo contra o Monte Azul que, com todo o respeito, está longe de ser um adversário memorável. Acontece que a torcida já antecipava novo show dos Meninos da Vila e pagou para ver. Conclusão tão óbvia que dá até vergonha formular: a frequência ao estádio depende – e muito – da expectativa favorável sobre a qualidade do espetáculo. Se o Santos continuar a jogar bem desse jeito terá público no Paulista, no Brasileiro, na Copa do Brasil e num eventual amistoso contra o Chapetuba Futebol Clube.

De qualquer forma, também é claro que o novo Santos é a melhor coisa que poderia acontecer ao Campeonato Paulista de 2010. Se vai ganhar, não sei e ninguém sabe. Os românticos diriam que só os deuses do futebol podem saber, mas eles, os deuses, nunca revelaram suas preferências a este cronista. Caso existam, são deuses silenciosos. E talvez irônicos, porque se divertem em ridicularizar nossas previsões. Ao contrário do que a maioria de nós afirmou no início, os quatro grandes não estarão todos presentes nas rodadas decisivas, cedendo vagas aos times “fracos”. As semifinais podem ter três grandes, apenas dois (o mais provável) ou somente o Santos, o primeiro colocado por antecipação. O simples fato de contrariar nossas previsões mais sábias já dá um certo crédito ao Campeonato Paulista, não é mesmo?

(Coluna Boleiros, 6/4/10)

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